Nelson Antoine/AP
Tradição. Mais de 35 mil pessoas estão inscritas na corrida  Nelson Antoine/AP

São Silvestre reúne amadores que participam pela festa em São Paulo

Em sua 95.ª edição, tradicional prova será realizada na manhã desta terça-feira com cerca de apenas 150 atletas profissionais de elite

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 04h30

Das 35 mil pessoas inscritas na corrida de São Silvestre, nesta terça-feira, em São Paulo, cerca de apenas 150 são atletas de elite. Em sua 95.ª edição, a tradicional prova conta com milhares de corredores que vão apenas para participar da festa. Eles largam do pelotão geral. Engana-se, entretanto, quem pensa que esses amadores não precisam ter uma preparação adequada para suportar o percurso de 15 km.

Dos treinos à hidratação correta, passando pelo aquecimento antes da partida, os atletas amadores recebem orientações para completar a prova em boas condições, sem sobressaltos. O tempo realizado na São Silvestre acaba ficando em segundo plano, porque eles sabem que a quantidade de pessoas, principalmente na largada, dificulta o percurso. O que importa é participar da corrida que fecha o ano esportivo em São Paulo.

“A São Silvestre se tornou uma prova cada vez mais difícil de correr, porque tem muita gente. As pessoas vão mais pela festa e pela tradição, sem expectativa de tempo”, diz Nelson Evencio, ex-presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo, que terá 15 alunos competindo amanhã.

O professor dá treinos de até 45 km percorridos por semana, enquanto profissionais correm em média 150 km. Nos últimos dias, ele focou em atividades de subida e descida para simular o que os alunos terão pela frente.

Evencio não participará da prova, mas vai encontrar seus alunos na região da Avenida Paulista. “Darei apoio. Marcamos um ponto de encontro para eles deixarem os pertences comigo. Tem muita gente que vai trocada no metrô, mas é bom levar mochila com camiseta seca para vestir depois e não pegar gripe por entrar suado no metrô com ar condicionado.”

O professor dá outras dicas aos amadores. É recomendável que o café da manhã contenha alimentos leves e ricos em carboidratos (como pão com requeijão ou frutas sem casca). O competidor também precisa se preocupar com a hidratação e deve aproveitar a infraestrutura oferecida pela organização, que entrega copos d’água durante todo o percurso - há apoio médico caso seja preciso.

Em relação ao traçado, a subida da avenida Brigadeiro Luís Antônio é um dos trechos mais temidos pelos competidores. O especialista alerta para outra parte da prova. “A descida da Major Natanael é muito íngreme e o atleta pode cair ou tentar acelerar e se machucar. Aí acabou para ele.” Em 2012, o paratleta Israel Barros morreu neste trecho ao perder o controle da cadeira de rodas e bater no muro do estádio do Pacaembu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Prova feminina da São Silvestre tem recordista mundial

Brigid Kosgei será uma das atrações da tradicional prova paulista

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 04h30

Mais uma vez são os africanos os favoritos na corrida de São Silvestre. No masculino, dois bicampeões da prova estão confirmados: Edwin Kipsang Rotich, do Quênia, vencedor das edições de 2012 e 2013, e Dawit Fikadu Admasu, do Bahrein, que ganhou em 2014 e em 2017.

No feminino, a queniana Brigid Kosgei, atual recordista mundial da maratona feminina, será uma das atrações da edição paulista. Outro destaque é a também queniana Pauline Kamulu, bronze na maratona do Mundial de Atletismo disputado em Doha, neste ano, e atual vice-campeã da São Silvestre.

O Brasil aparece como “azarão” mesmo dentro de casa, mas conta com destaques que podem surpreender. O primeiro é Daniel Chaves da Silva, Top 15 na Maratona de Londres 2019, garantindo a qualificação para os Jogos de Tóquio-2020.

Além dele, outro que poderá brilhar é Wellington Bezerra, 18.º na Maratona de Hamburgo (Alemanha) deste ano e vice da Maratona Internacional de São Paulo em 2018. Por fim, as esperanças ainda estão com Ederson Pereira, campeão da Volta Internacional da Pampulha, ouro nos 10 mil nos Jogos Pan-Americanos de Lima, ambos neste ano, e quinto na Meia Maratona de Buenos Aires 2018.

Entre as mulheres, duas brasileiras estão entre as atrações da Elite: Valdilene Silva e Tatiele de Carvalho. A primeira foi a 15.ª colocada na Maratona de Frankfurt (Alemanha) no ano passado. Já a segunda ficou na quarta colocação na prova Dez Milhas Garoto e em quinto lugar na Meia Maratona de Buenos Aires, ambas em 2018.

A partir desta 95.ª edição, a prova de São Silvestre passa a ser da categoria Road Race Bronze Label da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês), entrando para o rol das principais corridas do mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Última vez que brasileiro chegou em 1º na São Silvestre foi em 2010

Entre as mulheres, o tempo sem conquista é ainda maior: desde 2006 uma atleta do País não termina no lugar mais alto do pódio

Guilherme Amaro, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 04h30

O Brasil vive um jejum de nove anos na São Silvestre. A última vitória verde e amarela aconteceu em 2010, quando Marílson Gomes dos Santos faturou a prova no masculino. Entre as mulheres, o tempo sem conquista é ainda maior: desde 2006, com o título de Lucélia Peres. De lá para cá, nas duas modalidades, os corredores da Etiópia e Quênia vêm dominando a competição em São Paulo.

Apesar do jejum, o Brasil ainda é o maior vencedor da São Silvestre, com 29 edições conquistadas. O Quênia aparece em segundo lugar, com 14 títulos. No feminino, o País figura na terceira posição, com cinco conquistas, atrás de Portugal (sete vezes) e Quênia (13).

Na prova do ano passado, por exemplo, o Brasil mais uma vez não conseguiu fazer frente aos africanos. Os melhores colocados do País foram Giovani dos Santos e Jenifer Nascimento, ambos em oitavo lugar.

Na edição de 2017, o Brasil amargou o pior resultado em 45 edições da São Silvestre. No masculino, o representante mais bem colocado foi Ederson Pereira, que terminou a prova em 12.º lugar. Entre as mulheres, a melhor posição foi da 10.ª colocada Joziane Cardoso.

Para o ex-presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo Nelson Evencio, são dois fatores principais que fazem o Brasil viver o jejum de títulos na São Silvestre: a falta de apoio aos corredores no País e a genética dos africanos. 

“Perdemos essa qualidade de treinamento. Hoje, você treina para correr várias provas e fazer seu pé de meia. Tem corredores que fazem três provas por mês, por exemplo. Os africanos, do chamado primeiro escalão, correm apenas as provas grandes e chegam mais preparados para a São Silvestre”, opinou Evencio.

As diversas opções de corridas ao longo do ano, atrelada à forte concorrência da São Silvestre, também explicam a falta de brasileiros campeões nas últimas edições. Em vez de apostarem na tradicional prova de São Paulo, muitos competidores preferem disputar outras corridas. A São Silvestre distribui R$ 461 mil em prêmios, com igualdade no masculino e feminino. O vencedor fica com R$ 94 mil, o segundo colocado ganha R$ 47 mil, o terceiro embolsa R$ 27 mil, o quarto ganha R$ 22 mil, o quinto recebe R$ 16 mil, o sexto fica com R$ 7 mil, o sétimo ganha R$ 5 mil e do oitavo ao décimo colocados ganham R$ 4 mil cada um. O valor da inscrição foi de R$ 197,50.

“Há centenas de provas com boa premiação durante o ano. Até por questão de sobrevivência, os atletas acabam correndo mais provas, e a São Silvestre deixa de ser uma prioridade, porque eles já estão cansados. É importante ressaltar que isso não é culpa dos competidores, e sim da falta de apoio ao esporte no Brasil”, pontua Evencio.

O professor de corridas mostra mais pessimismo para o futuro da modalidade no País. Para ele, há apenas um clube de ponta no Brasil, o Pinheiros, de São Paulo, que oferece infraestrutura aos atletas. Ele também citou a falta de patrocínio para os competidores. “Esse cenário só tende a piorar, porque os corredores têm cada vez menos opções. Falta apoio e investimento aqui no Brasil, há um grande problema de falta de infraestrutura, enquanto os estrangeiros têm vários incentivos e lugares para treinar”, disse ao Estado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.