Saudade de um gênio

Ronaldinho arrancou da intermediária, entrou na área, acariciou a bola, curvou o corpo e arrematou com classe e precisão no canto esquerdo de Renan. A noite do último sábado ficou mais alegre para quem acompanhou os 4 a 0 do Flamengo sobre o Avaí na abertura do Campeonato Brasileiro e certamente emocionou os fãs do gaúcho de 31 anos.

Eduardo Maluf, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2011 | 00h00

Gols como esse eram corriqueiros no Grêmio, no Paris Saint-Germain e no Barcelona. Mas há cinco anos eles se tornaram raros. Neste maio de 2011 lembro, com saudade, que há exatamente meia década o gênio encerrou a carreira. E deu lugar a um Ronaldinho comum, como vários outros por aí - com lampejos do antigo craque.

Amanhã será realizada a finalíssima da Copa dos Campeões, entre Barcelona e Manchester United, em Londres. Seria fantástico ver o brasileiro ao lado de Messi, um sonho para qualquer amante do bom futebol. Só um sonho! O Barça agradeceu "todos os serviços prestados", mas o dispensou em 2008 por causa de sua queda técnica e física, resultado de uma vida não tão regrada fora de campo.

Ronaldinho brilhou pela última vez justamente numa Copa dos Campeões, em 17 de maio de 2006, data da vitória de seu Barcelona sobre o Arsenal por 2 a 1, no Stade de France (subúrbio de Paris), o mesmo que consagrou Zidane em 1998. Naquela semana pude sentir o quão grande era esse meia-atacante na Europa.

Fui enviado pelo Estado à França para fazer a cobertura do jogão, antes de seguir para a Copa da Alemanha. Fiquei impressionado com o prestígio que o craque brasileiro carregava. Vi, entre outras coisas, cambistas vendendo ingressos a 4 mil euros. Com a seguinte alegação: "É final de campeonato e tem o melhor jogador do mundo em campo". A referência, claro, era a Ronaldinho. Naquela decisão, em que o último gol do triunfo espanhol por 2 a 1 foi feito pelo também brasileiro Belletti, o astro nem se destacou tanto. Mas o título coroou mais uma temporada perfeita. A torcida não queria saber quem foi o melhor em campo naquela noite de quarta-feira. A festa, claro, era para seu maior ídolo - eleito atleta do ano em duas eleições da Fifa, 2004 e 2005.

Lembrei-me desse dia porque, para mim, foi o último do supercraque Ronaldinho. Depois, na Copa do Mundo, fracassou. Seu 2007 foi apagado, com críticas (o que parecia impossível) por parte da torcida catalã. Em 2008, não teve sucesso na tentativa de levar o Brasil ao inédito ouro olímpico, na China. Transferiu-se para o Milan, onde ficou dois anos e pouco acrescentou à equipe. A volta ao País apenas significa a última etapa de sua vida profissional como atleta e a confirmação da decadência.

Contra adversários mais fracos no Campeonato Carioca e na Copa do Brasil, eu esperava acompanhar pelo menos repentes do show a que Ronaldinho se acostumara a dar. Não foi o que houve. Ao contrário, chegou a ser vaiado pela torcida rubro-negra.

De acordo com jornalistas e dirigentes espanhóis, está claro que Ronaldinho deixou de ser genial porque quis. Muitas chances para que se reerguesse lhe foram dadas, mas nenhuma aproveitada desde 2006. Em sua cabeça, com a vida financeira feita e a história no esporte escrita, havia chegado a hora de aproveitar outras coisas da juventude: festas, passeios, mulheres. A bola foi relegada ao banco de reservas.

Como fã e admirador, fico triste ao vê-lo longe dos principais templos do futebol mundial, seu nome excluído de todas as listas de seleção, sem nem haver cobrança do torcedor a Mano Menezes, sua presença cada vez mais esporádica nos Gols do Fantástico. A opção que tomou, no entanto, deve ser respeitada. Em pouco tempo de carreira, no fim dos anos 90, seu patrimônio cresceu seguramente 20, 30, 40 vezes. Hoje, tem bens para fazer inveja a muita gente... Mas tudo o que ganhou foi fruto de seu talento, de seu trabalho, de sua dedicação. Que aproveite suas conquistas como achar melhor. E que, de vez em quando, faça gols como o de sábado.

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