Saudade do bom futebol

A cabo de ver o jogo entre Brasil e Portugal. Não vou analisar o time brasileiro, porque não sou especialista nisso. Mas uma coisa eu sei. A bola nunca chegava ao lugar certo. Simplesmente não sei quem são os encarregados de fazer a bola chegar à frente, não sei quem é que organiza o time e não tenho a menor ideia de quem é que deve fazer os lançamentos. Não é de hoje que esse tipo de jogador faz falta.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Estava pensando nisso quando vi um livro na minha frente. Chama-se "Recados da bola", uma edição da Cosac Naify, organizada por Jorge Vasconcelos. O livro se compõe de magníficas fotos e alguns textos. Não vou falar das fotos que, por si só, já valem o livro. Não são fotos desgastadas, mil vezes vistas. A maioria é de fotos que eu nunca tinha visto, algumas espetaculares. Mas vou falar dos textos. São depoimentos de grandes craques, entre os maiores do futebol brasileiro.

Minha especial predileção por jogadores de meio-campo me fez destacar Jair Rosa Pinto, Zizinho, Zito, Didi e Rivellino. Todos os que fizeram parte da magnífica tradição brasileira do passe. Como sempre tivemos grandes dribladores, frequentemente nos esquecemos dos grandes meio-campistas lançadores. Sobre isso uma frase de Didi é definitiva: "Eu não gostava de driblar porque o drible é uma emergência do futebol. Às vezes, quando não é possível fazer uma tabela ou dar um passe, aí a gente precisa do drible". Minha tentação é transcrever literalmente o que esses gigantes falaram do passe, mas o espaço é curto. Acho que vale a pena alguns trechos em que se vê a admiração de um jogador por outro.

Sobre Jair, diz Zito, ele mesmo um mestre do meio-campo: "Ele tinha um chute muito poderoso. Além do que, os lançamentos do Jair eram perfeitos. Às vezes deixava a gente até com vergonha, quando colocava a bola na cara o gol e a gente perdia". E o próprio Jair emenda: "No meu tempo eram dois no meio-campo. Hoje são cinco. Não vou dizer que os jogadores de antigamente eram melhores que os de hoje, só que na minha época de oito bolas lançadas, umas sete eram aproveitadas. Cinco no meio mais atrapalha do que ajuda".

O grande Zizinho declara: "O meu prazer foi sempre dar o último passe. O companheiro metia a bola pra dentro e corria para abraçar a gente, agradecido. Hoje ele corre para a torcida. Não entendo isso. Botar a bola pra dentro é só um detalhe, devia agradecer ao amigo que deu o passe. O público não tem nada com isso". E mestre Ziza continua: "Não podia errar passes, já que a obrigação de recuperar a bola era sempre dos dois homens de meio. Era preciso usar a cabeça o tempo todo e não deixar espaço. Eu, com setenta quilos, perdia quatro e meio por jogo. Hoje acho que tem gente que chega até a engordar em campo".

Voltando a Didi: "Depois que parei de jogar procurei passar o bastão para o Gerson. Este por sua vez passou para o Rivellino, que foi o último dos moicanos do meio-campo, o último dos jogadores intocáveis". Ao que Rivellino acrescenta: "Pertenço a uma certa linhagem criativa do futebol, sempre tive muita facilidade em meter uma bola de trinta, quarenta metros?"

Estes são apenas trechos que mostram como era essa grande escola do futebol brasileiro. Ainda existirá alguém como eles? Pode ser, mas não estava em campo contra Portugal.

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