Divulgação - 2008
Divulgação - 2008

Scheidt: Mestre dos Mares

Em Londres, Scheidt terá a chance de se tornar o único tricampeão olímpico do Brasil

Alessandro Lucchetti, Jornal da Tarde

23 de junho de 2012 | 23h32

SÃO PAULO - Robert Scheidt já ganhou muitos títulos na carreira. Mas até hoje ele recorda uma das maiores emoções de sua vida: a conquista do primeiro lugar do Mundial de Juniores de 91 na classe Laser, que alcançou na Escócia, aos 18 anos de idade. "Já vou poder dizer aos meus filhos que fui campeão mundial", disse na época o velejador, que só naquele momento constatou que realmente havia escolhido um ramo de atividade no qual teria chances de prosperar. Hoje, aos 39 anos, o filho teria de sentar para ouvir o pai falar sobre a extensa coleção de glórias.

Scheidt conquistou oito títulos mundiais da classe Laser e mais três da Star. No dia 5 de agosto, dia da Medal Race, a regata decisiva da Star da Olimpíada de Londres, em Weymouth, ele talvez poderá dizer ao pequeno Eric que é o maior campeão olímpico da história do Brasil. Hoje, o "Alemão" se iguala a Adhemar Ferreira da Silva e à dupla Torben Grael e Marcelo Ferreira na galeria dos brasileiros bicampeões olímpicos em esportes individuais. Ele tem ainda duas pratas, obtidas em 2000, na Laser, e em 2008, já na Star, ao lado do fiel proeiro Bruno Prada.

Cláudio Biekarck, que será o chefe da delegação de vela do Brasil em Londres, tem dificuldades para explicar os motivos que levaram Scheidt a obter tamanho sucesso, embora o conheça praticamente desde sempre. Sócio, como Scheidt, do Yacht Clube de Santo Amaro, à beira da represa de Guarapiranga, Biekarkc ainda veleja. Aos 60 anos, conquistou um bronze na classe Lightning nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, no ano passado, muitos anos depois de chegar bem perto de uma medalha olímpica: foi quarto colocado na Finn, em Montreal/1976. "Eu conheço o Robert desde que ele tinha uns oito anos e velejava de Optimist (classe introdutória) com um chapeuzinho de marinheiro. Desde o começo ele já mostrava essa paixão pela vela. Sempre que podia, estava na represa, treinando. Além de ter o dom e o jeito para a coisa, ele sempre foi extremamente disciplinado".

Custou um pouco de tempo para Scheidt abraçar a vela, embora o esporte já estivesse no sangue. O avô do campeão olímpico velejava e chegou a morar em Ilhabela, e o pai, Fritz, fazia suas manobras na Billings. Na infância, ele também se dedicou ao tênis, ao atletismo e à natação, que praticou no Esporte Clube Banespa, situado próximo a sua casa, no Alto da Boa Vista, e no Pinheiros. Durante a adolescência, ficou em dúvida entre o tênis e a vela. Apenas aos 14 anos deixou a raquete um pouco de lado, embora mantenha o interesse e jogue recreativamente. No Brasil Open deste ano, por exemplo, Scheidt foi visto esquentando sua cabeça loira na torcida pelo irregular Thomaz Bellucci, no Ginásio do Ibirapuera.

Por nove anos, de 95 a 2004, período em que Scheidt competiu na Laser, Biekarck exerceu o difícil papel de treinador de um velejador que sabe praticamente tudo de vela. E, embora fosse o encarregado de orientar um competidor extremamente confiante e determinado, o velho lobo do mar acha que o aspecto mais importante em sua função se situava mesmo no campo psicológico. "Imagine o que é competir por horas a fio dentro de um barco, sozinho. Até mesmo ele tem dúvidas e precisa de alguém com quem possa conversar."

Reconhecido como o melhor velejador do mundo pela Federação Internacional de Vela (Isaf) em 2001 e em 2004, Scheidt foi beneficiado por ter, em seus anos de formação, uma boia que teve que contornar – ou seja, uma meta muito concreta: superar Peter Tansheit, bronze em 87 e em 90 no Mundial de Laser, e finalmente, campeão em 91.

"O Peter teve papel fundamental para o Scheidt. O grande objetivo do Robert era bater o Peter, que era ótimo nos ventos folgados", rememora Biekarck.

No Mundial de Takapuna, na Nova Zelândia, em 93, Scheidt chegou perto do ídolo: conseguiu o bronze, enquanto Tansheit foi vice-campeão. A consagração de Scheidt ocorreu em 95, quando faturou seu primeiro título mundial adulto, na Espanha.

Por terem o mesmo patrocinador, o carioca Tansheit e o paulista Scheidt treinaram juntos durante toda a preparação que antecedeu a briga por vaga olímpica para os Jogos de Atlanta. "Decidimos fazer essa campanha juntos para que um puxasse ao máximo o outro. Assim, as chances de que o brasileiro que conquistasse a vaga olímpica na Laser representasse bem o País seriam grandes.

Ele ganhou a vaga e representou o Brasil maravilhosamente bem, como campeão olímpico", lembra o velejador. "Tenho excelentes recordações do Robert. Não éramos muito próximos, mas sempre nos respeitamos muito, porque compartilhamos a mesma educação que se recebe em famílias alemãs, de muito respeito. Sempre respeitei quem ficava comigo nos degraus mais baixos do pódio, e quando ele subiu me respeitou também, da mesma forma."

Uma das características que mais chamam a atenção em Scheidt é a incrível capacidade de se motivar, mesmo após se consagrar repetidas vezes. Assim, depois de conquistar o ouro olímpico por duas vezes na Laser, foi se desafiar na Star, onde além de ter que se adaptar a um novo barco, muito mais complexo e cheio de regulagens, teria que escolher um proeiro à altura e depender dele. Como se tudo isso não bastasse, foi invadir a seara de ninguém menos do que Torben Grael, o qual teria de obrigatoriamente derrotar para poder disputar os Jogos Olímpicos de Pequim.

Prada superou as expectativas. Para Biekarck, uma de suas principais virtudes é acompanhar o ritmo de Scheidt e se aproximar dele em termos de dedicação. O proeiro conhece Scheidt desde a infância e aprendeu a lidar com ele. "A grande qualidade dele é o perfeccionismo. Só que ele fica um pouco mais chato por causa disso. Mas estamos numa fase tão boa que nem temos assunto para brigar. A palavra que nos move e faz com que as coisas andem bem é objetivo", afirma Prada.

Embora diga que não pensa muito a respeito do assunto, Scheidt pode se igualar a Torben se chegar à quinta medalha olímpica, mas depois disso seu futuro é uma incógnita. A classe Star foi retirada do programa olímpico. Ainda pode voltar, caso seja bem sucedido o lobby que o Brasil fará. Por ser país-sede de 2016, tem poder de fogo.

Caso a iniciativa não emplaque, o destino é mais do que incerto. Scheidt poderia voltar à Laser, mas a classe exige um vigor físico que o então quarentão talvez não possa atender. Se for para a Finn, ele terá que engordar 15 quilos, ideia que não faz muito a sua cabeça.

Depois de Londres, Scheidt poderá realizar o desejo de dar um irmão a Eric, adiado porque sua mulher, a lituana Gintare Scheidt, quer aumentar sua galeria particular de conquistas olímpicas. Ela foi vice-campeã olímpica em 2008 na classe Laser Radial. Foi no Pré-Olímpico de Qindao, aliás, que os olhos claros de ambos se cruzaram. Hoje, a família Scheidt mora na Itália, à beira do romântico Lago Di Garda.

Outro plano que está no horizonte é participar de disputas de vela oceânica, como a America’s Cup, caminho já seguido por Torben.

Mas antes Scheidt e Prada terão que encarar a dupla inglesa Iain Percy e Andrew Simpson. Os britânicos não economizam e investem milhões de libras para impressionar o mundo com conquistas em sua olimpíada doméstica. Percy e Simpson competirão aparelhados por uma caixa preta que faz mensuração em tempo real e informa sobre a melhor maneira de realizar uma manobra. Contra essa parafernália eletrônica, Scheidt e Prada vão atacar com o velho feeling. A narrativa desse duelo com certamente vai tirar o pequeno Eric da frente da televisão. Afinal, ele tem um herói olímpico, e que não é desenho animado, dentro de sua casa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.