Se criarem torneios, elas virão

Embora tenha potencial, a categoria sobrevive graças à paixão de atletas e dirigentes que vivem no amadorismo

Valéria Zukeran, O Estadao de S.Paulo

28 de outubro de 2007 | 00h00

No filme O Campo dos Sonhos (1989), Ray Kinsella, personagem interpretado pelo ator Kevin Costner, é um fazendeiro filho de um ex-jogador de beisebol que é convencido a construir um campo entre suas plantações de milho ao escutar uma voz que lhe sussurra a frase ''''If you bild it, they will come'''', que poderia ser traduzida como ''''se você construir, eles (jogadores de beisebol) virão''''. A história tem certa semelhança com a situação do futebol feminino brasileiro atual: após um levantamento da presença do esporte nos Estados feito pelo Estado, a conclusão é de que se, os dirigentes resolverem organizar campeonatos, surgirão jogadoras dispostas a competir.Quando se faz tal afirmação, no entanto, é bom esclarecer que não quer dizer que em pouco tempo o futebol feminino poderá ter a força do masculino. Segundo informações das Federações Estaduais, a estrutura atual ainda é totalmente amadora. Mas a paixão pela bola está semeada: em praticamente todos os cantos do Brasil existem competições. As federações geralmente entram com sua chancela e, com isso, procuram dar legitimidade aos títulos.Os clubes são pequenos e a maioria não têm vínculo com equipes tradicionais. ''''Aqui, por exemplo, o futebol feminino sobrevive pelas pessoas que têm amor ao esporte. Por exemplo: um pai que resolve montar uma equipe para a filha'''', conta o presidente da Federação de Futebol do Mato Grosso do Sul, Francisco Cezário, em discurso semelhante ao de outros dirigentes. ''''Na época dos jogos, o pessoal se reúne e vai de Kombi, ou mesmo de caminhão para disputar as partidas.''''As jogadoras são jovens, muitas em idade escolar. Os campeonatos têm, no máximo, 20 times - caso do torneio Paulista -, mas geralmente as competições não têm mais de oito participantes, que sempre contam com patrocínios modestos para bancar as despesas com viagens e estada. Isso quando as atletas, para competir, não tiram dinheiro do próprio bolso ou do bolso dos pais.TORNEIOS ESPORÁDICOSA maioria das jogadoras não vive do futebol. ''''E as poucas meninas que sobrevivem do esporte têm como única ajuda a bolsa-atleta'''', conta Luiz Carlos Picolo, presidente da Liga Nacional de Futebol (Linaf), organizadora das últimas competições nacionais femininas realizadas no País antes da Copa do Brasil. Em 90% dos casos, os Estaduais duram cerca de três meses e são realizados em um período entre os meses de novembro e fevereiro, época das férias escolares e de trabalho.Como o período de ''''entressafra'''' é grande, normalmente as equipes são dissolvidas ao fim das competições e voltam a se reunir no ano seguinte. Foi o caso, por exemplo, do Genus, campeão de Rondônia, que teve de fazer uma seletiva em Porto Velho para montar um time para a Copa do Brasil. O Estadual terminou no começo do ano. ''''Como não temos competições o ano todo, as equipes costumam ser reunidas alguns meses antes de o Estadual começar'''', informou a federação local.Há poucas equipes que mantêm atividade o ano todo. A maioria delas está no eixo Rio-São Paulo. ''''O Cepe, de Caxias, tem uma estrutura parecida com as equipes profissionais masculinas: treina em período integral e conta com médicos, fisioterapeutas, embora não pague salários'''', conta Picolo. Outro time de destaque em termos de condições de trabalho é o de Botucatu, que vai participar da Copa do Brasil. Segundo Picolo, se encaixa no perfil da maioria dos times paulistas. ''''Cerca de 90% desses times são bancados pelas prefeituras, inclusive o Santos. A equipe usa a camisa do clube, mas quem a mantém é a prefeitura local.'''' Os times jogam o ano inteiro porque representam a cidade nos Jogos Abertos do Interior e nos Jogos Regionais.O maior desafio do futebol feminino é encontrar uma estrutura que permita a manutenção dos elencos. Muitos dos grandes clubes, como a Portuguesa - que chegou a ser campeã brasileira -, desistiram de manter suas equipes permanentes de mulheres. Na época, alegaram prejuízos por ter de pagar as despesas das atletas, que passavam cerca de seis meses sem competir. A Copa do Brasil, que começa esta semana, é a esperança de todas as jogadoras, que sonham em viver da bola, de que esta realidade de dificuldades e amadorismo seja transformada em uma estrutura digna do futebol vice-campeão mundial.ESTADUAIS FEMININOS ESTADOS AcreAlagoasAmapáAmazonasBahiaBrasíliaCearáEspírito SantoGoiásMaranhãoMato GrossoM. Grosso do SulMinas GeraisParáParaíbaParanáPernambucoPiauíRio de JaneiroRio Gde. do NorteRio Gde. do SulRondôniaRoraimaSão PauloSanta CatarinaSergipeTocantins

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