'Se os criminosos se infiltrassem na Copa, seria terrível'

Ex-funcionário da Interpol virá ao Brasil para tratar da manipulação de resultados e desenvolver um plano sobre o que fazer

Entrevista com

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL / ZURIQUE, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2013 | 02h04

Grupos criminosos estão infiltrados no futebol sul-americano. O alerta é do diretor de segurança da Fifa, o alemão Ralf Mutchke. Ele revela ao Estado que vai começar a implementar no Brasil em março um projeto para lutar contra o fenômeno da manipulação de resultados, tendo em vista também uma ação para a proteção dos jogos da Copa das Confederações e da Copa do Mundo de 2014.

Mutchke recebeu a reportagem na sede da Fifa, em Zurique, e estima que hoje cem países são vulneráveis ao crime organizado no futebol.

O ex-chefe do combate à corrupção e crimes financeiros na Alemanha e ex-funcionário de alto escalão da Interpol também avaliou para a situação da segurança na Copa do Mundo no Brasil em 2014. Apontou que não são episódios como o drama da boate de Santa Maria que tira seu sono. "O que mais me preocupa é a criminalidade nas ruas das cidades brasileiras."

A Europol publicou o resultado de sua investigação sobre manipulação de resultados no futebol, apontando para 700 jogos sob suspeita e 450 pessoas envolvidas. Foi algo que o surpreendeu?Não me surpreendeu. A maioria dos casos eu conhecia e é o resultado de investigações em seis países. Não há surpresa. Apenas somaram todos os casos e apresentaram ao público. Muitos já foram punidos. Obviamente, esses casos prejudicam a imagem do futebol.

Mas o que isso revela em relação ao uso do futebol por grupos criminosos?

Em primeiro lugar, precisamos admitir que o envolvimento do crime organizado em apostas no esporte aumentou. Fazem como qualquer empresa do mundo. Avaliam o tamanho do mercado e os riscos. O mercado mudou nos últimos anos. Pela internet, você pode ter acesso às casas de apostas no Sudeste Asiático e, a partir daí, de todas as partes do mundo. Mesmo que as apostas sejam proibidas em seu país, você pode fazê-las pela internet em empresas na Ásia. O mercado também mudou com a possibilidade de apostar enquanto um jogo está ocorrendo. Antes, só se podia apostar antes de o jogo começar. Agora, há muitas formas de apostar, o que torna isso algo muito atraente para o crime organizado. O que vemos é que grupos criminosos da Ásia e do Leste Europeu e também em toda a América do Sul avaliam que as apostas são de alto lucro e baixo risco. Por isso, estão investindo muito em se infiltrar no futebol.

Como o senhor avalia a vulnerabilidade do Brasil diante desse fenômeno?

Estamos falando de corrupção e encontramos corrupção em todos os lugares. Não me importa qual a região. Eu preciso lutar contra ela em todo o mundo. Não é questão de desenvolvimento de um país. Encontramos indícios de criminosos mesmo na Finlândia, um país que era considerado como um dos menos corruptos do mundo. Mesmo assim, conseguiram se infiltrar nos clubes de futebol para manipular. Portanto, o crime não está preocupado com o índice de desenvolvimento de um país. É uma questão de mercado. Eu avalio que cerca de cem campeonatos pelo mundo são vulneráveis. Alguns falam que é fácil controlar isso. Ninguém vai controlar.

No caso do Brasil, o senhor está em contato com a Polícia Federal?

Nosso contato primeiro é com a CBF. Mas, claro, também temos alguns contatos com a polícia. Também temos uma forte coordenação com a Interpol e que vamos usar. Em março, vamos ao Brasil com uma iniciativa - que já lançamos na Turquia, na Europa e na Guatemala para a América Central. Vamos ao Brasil, com a Interpol, para tratar da manipulação de resultados, já na preparação para a Copa das Confederações e Copa do Mundo. Isso é para alertar sobre a situação e vamos desenvolver um plano sobre o que fazer. Muita gente sabe do problema. Mas não sabe o que fazer. Queremos o estabelecimento de um sistema em que relatórios possam ser transmitidos e cheguem até mim. Convidaremos juízes, policiais e vários atores para participar.

Há risco de manipulação nos grandes eventos da Fifa?

Sempre há um risco. Se os grupos se infiltrassem nos nossos produtos mais nobres, como a Copa do Mundo, seria terrível. Seriam os melhores lucros que poderiam obter. Todos os árbitros que vão ao Mundial no Brasil estão sendo treinados. Todos vão assinar uma declaração de integridade. Há ainda um encontro dos árbitros com a Interpol.

Há pouco tempo, o jogador italiano Farina denunciou um esquema mafioso no futebol italiano. Foi aplaudido e depois nunca mais conseguiu um lugar num clube italiano. O que isso mostra? O senhor acredita que a resistência em lidar com esse fenômeno vem também do futebol?Não sei. Eu era o responsável por investigar a corrupção na Alemanha e crimes financeiros. E vi que quando há alguém que denuncia, essa pessoa acaba saindo do país. Eles saem da equipe. Talvez isso ocorra também no futebol.

Em relação à segurança da Copa de 2014, outro assunto de sua competência, ninguém questiona a capacidade dos organizadores em criar estádios seguros. A questão é o que ocorre quando a torcida sai às ruas e vai a boates como a de Santa Maria. Até que ponto o senhor está preocupado com a situação da segurança?

Ouvi dizer que na região de Santa Maria há crime também. Não é a discoteca. Vimos carros queimados (em Santa Catarina). Isso é muito mais preocupante. Obviamente é preocupante o que ocorreu na discoteca. Mas isso poderia ocorrer em qualquer parte do mundo, inclusive na Europa. Mas o que de longe é muito mais preocupante é a violência nas ruas em São Paulo e Rio de Janeiro. São essas as considerações dos turistas estrangeiros ao avaliar se é seguro ir ao Brasil. "Será que posso ir às ruas?" Isso é muito mais alarmante para o turista que a discoteca. A questão que alguém se coloca se vai ou não ao Brasil é a violência nas ruas. Esse é o problema.

E o que senhor pensa em fazer sobre isso?

Temos de lidar com isso. Sei que os brasileiros sabem bem do problema e planejam algo antes da Copa das Confederações para mostrar que estão preparados. Sei que os militares, que têm muitos recursos, estão envolvidos nessa preparação. Há ainda a Polícia Federal e as polícias estaduais. Estamos ainda trabalhando sobre os detalhes e na semana que vem o COL vai explicar ao comitê de estádios da Fifa o que vai ser feito.

Quantos policiais serão necessários para a garantir a segurança na Copa?

Quanto mais melhor.

Mas o senhor não vê um problema diante da participação de militares nas ruas?

Talvez seja um pouco estranho na Europa ver os militares na rua. Aqui, fazemos uma diferenciação grande entre o que é segurança externa e interna. Mas acho que, no Brasil, a Polícia Militar já tem deveres de polícia e é diferente.

Terrorismo no Mundial de 2014 continua sendo uma preocupação?

Não é para nós avaliarmos isso. Quem precisa colocar essa questão são os serviços de inteligência e precisamos nos apoiar nessa avaliação. A Interpol está coletando informações também. O futebol até agora não foi alvo de ataques terroristas. E espero que assim continue. Porque, sinceramente, um estádio e uma Fan Fest são quase impossíveis de se tornarem alvos do terrorismo, e em qualquer lugar com milhares de pessoas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.