Seleção de 70 perde goleiro das defesas milagrosas

Titular do Brasil tricampeão na Copa do México morre aos 74 anos vítima de enfisema pulmonar; ele não aceitava que falassem de suas falhas e esquecessem os seus méritos

O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h07

Memória

Estádio Azteca, 21 de junho de 1970. O Brasil acabara de conquistar o tricampeonato mundial. Em meio à comemoração, perceberam a falta de alguém, o goleiro titular da seleção. Pouco depois, ao juntar-se aos companheiros, ele se explicou: saíra correndo atrás de um telefone para ligar para o Rio e falar com Lígia, uma de suas três filhas: "Filha! Teu pai é campeão do mundo! Pode falar para suas amigas aí no colégio que eu não sou frangueiro não!''

O autor daquele telefonema morreu ontem pela manhã, em um hospital da zona leste da cidade de São Paulo. Felix Miéle Venerando foi vencido por um enfisema pulmonar após 74 anos e oito meses de vida. Morreu incomodado pela fama de frangueiro que o perseguia desde antes daquela Copa. Incômodo que jamais superou. Tanto que, virava e mexia, recordava, a amigos e em encontros com jornalistas, aquela passagem da ligação feita enquanto todos os seus companheiros festejavam.

Felix é o terceiro tricampeão que se vai. O lateral-esquerdo Everaldo faleceu em 1974 em um acidente de trânsito. O zagueiro reserva Fontana foi fulminado por um ataque cardíaco aos 39 anos, em 1980.

"Cidadão da Mooca'', como costumava dizer, Felix começou no Nacional de São Paulo, passou pelo Juventus - clube em que se profissionalizou com apenas 15 anos - e em 1955 chegou à Portuguesa. Em 1957 voltou ao Nacional, por empréstimo. Três anos depois, retornou à Lusa. Ficaria até 1968, quando saiu para o Fluminense, onde ganharia vários títulos e encerraria a carreira, no início de 1978, aos 40 anos.

À seleção brasileira, chegou em 1965. Em 1967/1968, foi bicampeão da Copa Rio Branco. Titular absoluto das Eliminatórias para a Copa do México, em 1969, manteve a posição durante o Mundial, mesmo com a troca de treinador - João Saldanha por Zagallo. Defendeu o Brasil até 1972, num total de 48 partidas.

Magro, meio corcunda, considerado baixo (tinha entre 1,76m e 1,79m, de acordo com registros imprecisos), não usava luvas e ganhou o apelido de "Papel''. E, graças à sua elasticidade, ajudou o Brasil em 1970 com defesas milagrosas, apesar das falhas em vários dos sete gols que sofreu.

Foi na Copa que fez aquela que considerava as duas maiores defesas de sua carreira. No 1 a 0 contra a Inglaterra, pegou cabeçada à queima-roupa de Lee e, no rebote, o atacante inglês chutou seu rosto. Mas ele ficou com a bola. "Só falam da defesa do Banks (goleiro inglês) na cabeçada do Pelé. Mas tem de lembrar a minha também. Se não lembram, eu lembro. Fui a nocaute com aquele chute'', dizia.

A outra defesa marcante foi contra o Uruguai, na semifinal. "Peguei uma cabeçada do Cubillas onde a coruja dorme (no ângulo); na sequência, o Brasil fez 3 a 1'', recordava.

Depois de deixar o gol, Felix teve breve trajetória como treinador, foi gerente de loja de eletrodomésticos, de uma funilaria e teve uma escolinha de futebol. Não ficou rico, pois, "naquela época, não se chegava a tanto''.

Felix, que será enterrado hoje, às 10 horas, no Cemitério do Araçá, morreu incomodado pela injusta fama de frangueiro e frustrado por não ter desfrutado da aposentadoria estabelecida para os jogadores campeões mundiais na Lei Geral da Copa - também terão direito a prêmio de R$ 100 mil. Para ele, não deu tempo.

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