Seleção indigesta

Há ocasiões em que a gente come algum alimento que não cai bem. Você sabe como é, aquela coisa que pesa no estômago, incomoda, tira o bom humor e exige um sal de frutas. O mesmo ocorre em determinadas situações ou com certos acontecimentos. A mais recente convocação da seleção, por exemplo, continua difícil de digerir, mesmo três dias após a divulgação oficial. Está entalada.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h05

Prova de desconforto foi dada por Muricy Ramalho. O técnico do Santos lamentou a enésima chamada de Neymar, na atual temporada, para juntar-se à tropa da amarelinha de Mano Menezes. Interpretou com ironia a explicação do colega - e que herdou o cargo para o qual havia sido convidado primeiro -, segundo a qual houve preocupação de tirar só um jogador de cada clube que cedeu talentos para os amistosos com Iraque e Japão em outubro. "No nosso caso, é desfalque de 50%", disse Muricy.

Coberto de razão. Neymar hoje é meio time do Santos, senão mais. Não sou fanático por números e estatísticas, porém em alguns casos eles explicam melhor do que dezenas de frases e arrazoados. Com o "11" em campo, o aproveitamento da equipe passa dos 70%. Ou seja, índice de campeão ou de quem briga por fazer papel bonito nas competições de que participa. Sem o ídolo, cai para 25%, referência pífia, desempenho de timeco que luta para não cair.

Não vale dizer que o abismo se deve à enorme dependência do Santos em relação à estrela maior. Trata-se de meia-verdade. Mesmo que fosse verdade inteira, é assunto particular, de interesse apenas da turma da Vila. Cada um usufrui de seus recursos da maneira que lhe aprouver, sobretudo no nosso futebol, em que não são muitos os foras de série por elenco. Ao contrário, são raros e caros. Então, sorte do Santos por ter sob contrato um jovem com a capacidade de Neymar. Por isso, tem direito total de contar com ele sempre que necessário.

É inversão de valores, distorção argumentar que a prioridade está na seleção, por causa de Olimpíada, Copa das Confederações, Mundial e o blablabá de costume. Conversa fiada, pra boi dormir. Sempre haverá uma justificativa para tirar atletas das equipes - e, em geral, sem ligar a mínima para protestos dos treinadores, vozes isoladas nesse meio. Ou quase. Agora, o Santos ensaia espernear e ousa pedir adiamento de jogos contra Vasco e Atlético-MG, sob a alegação de que se enfraquece sem Neymar.

Para ficar claro: tomo o Santos como parâmetro, por ter sido o único a manifestar-se neste momento. O direito à reclamação cabe a São Paulo, Atlético-MG, Vasco, Flu - a todos os que deverão disputar mancos duas rodadas da fase mais quente do Brasileiro.

O que mais embrulha a digestão moral é o fato de se cometer violência contra os times por motivo fútil. Os jogos contra iraquianos e japoneses não valem nada em termos de preparação para 2014. Não passam de compromissos previstos no acordo assinado com a empresa que comprou os direitos de negociar apresentações da seleção pelo mundo.

Mano sabe disso, mas desconversa, fala em observações. Normal a retração, pois ele é parte da engrenagem. Se fosse para testar a escalação que vislumbra como ideal, bateria o pé, convenceria os colegas, chamaria os que considera imprescindíveis, mesmo que fossem seis de um time só! Daí, a gente entenderia, porque de fato prevaleceria o desafio principal, o de entrosar o grupo para o Mundial.

Como foi feito, soa como paliativo. Ganham-se cobres e se perdem chances de formatar a seleção real. Pena.

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