Seleção no coração de Soweto

Jogadores treinam no local que entrou para a história por tragédia e por acelerar o fim do regime de apartheid

Luiz Antônio Prosperi e Sílvio Barsetti, O Estadao de S.Paulo

24 de junho de 2009 | 00h00

Os jogadores reservas da seleção brasileira treinaram contra o time sub-17 do Kaizer Chiefs, ontem à tarde, no Orlando Stadium, um moderno estádio, com capacidade para abrigar 40 mil torcedores, encravado bem no coração de Soweto. Andrew Teme, de 64 anos, nascido, criado e até hoje morador do emblemático município sul-africano, não quis acompanhar o "jogo" dos reservas de Dunga.Andrew não gosta muito de futebol. Gosta do Brasil. Tem vaga lembrança dos ídolos que vestiram a camisa da seleção canarinho. "Pelé, sim. Pelé. Tem também o Ronaldo... o Romário". Garrincha? "Não, nunca ouvi falar..." E o Dunga? "Não conheço, não sei quem é."Futebol não é mesmo uma das preferências de Andrew, que, entre outras coisas, faz alguns bicos como motorista. Presta serviço para um amigo, proprietário de um táxi. "Não conheço nenhum clube do Brasil. Gosto do Manchester United." Mesmo sem a mínima noção sobre os jogadores brasileiros, Andrew ficou triste ontem ao saber que muitos dos comandados de Dunga não têm a menor noção da importância histórico de Soweto nem sequer sabem o que ele representa.O atacante Luís Fabiano, por exemplo, ao ser questionado sobre a história do local na luta dos negros contra a segregação racial, respondeu que não sabia de nada. "Não estou informado, não sei nada sobre isso", disse. "Jogador pensa mesmo é nas condições do gramado, na bola, e não olha para o que acontece do lado. Mas seria bom a gente ser informado dessas coisas." O meio-campista Ramires, afrodescendente como Luís Fabiano, também disse que não tinha o menor conhecimento do que representa Soweto. "Não conheço a história. Deveria ser mais bem informado", respondeu ele, com sinceridade."Eles são negros e não conhecem a história de Soweto. É triste", disse Andrew, que foi militante e participou da resistência negra na década de 1970. Ele não pegou em armas, mas esteve em todas as frentes da luta.Andrew levou a reportagem do Estado ao coração de Soweto e à casa, na esquina entre as Ruas Vilakazi e Ngakane, em que Nelson Mandela morou em 1946 com sua primeira esposa, Evelyn Ntoko Mase. O local, hoje, é um museu. E mostrou alguns lugares do município que virou imenso canteiro de obras para a Copa do Mundo de 2010.Ali vive cerca de 1 milhão de pessoas, de acordo com o último censo realizado em 2001. "Todos negros. Não tem um branco aqui", diz Andrew.O município foi planejado em 1904 para abrigar os negros que trabalhavam em minas e nas indústrias de Johannesburgo (leia mais ao lado). Cresceu de forma desordenada, e grande parte morava em casebres com teto de lata. Atualmente, em vários distritos de Soweto, as casas são de alvenaria, cobertas com telhados, e muitas ruas são asfaltadas e arborizadas. Ali nasceram três grandes times da liga profissional de futebol da África do Sul, a Premier League Soccer: Orlando Pirates, Kaizer Chiefs e Moroka. O futebol é uma das paixões de Soweto. Campinhos de terra batida estão por toda a parte. "As pessoas aqui gostam de futebol. Nos fins de semana, as igrejas ficam cheias e os campinhos, também", conta Andrew, antes de se despedir no portão principal do Orlando Stadium.Lá dentro, os reservas de Dunga bateram os juvenis do Kaiser Chiefs por 7 a 0, em 45 minutos de atividade. Pato e Nilmar marcaram três vezes cada um. Julio Baptista completou.

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