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Antero Greco
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Sem Maracanazo

Já ouvi e li por aí que pode ocorrer um Maracanazo 2 na noite deste domingo. Para tanto, basta obviamente que a Espanha ganhe do Brasil e fique com a Copa das Confederações. Conversa fiada, lugar-comum, pobreza criativa e ignorância histórica. Coisa para provocar comoção popular. Da mesma forma, se a moçada de Felipão vencer, não será a redenção no estádio mais famoso do País e que já foi o maior do mundo.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2013 | 02h08

Pra início de conversa, Maracanazo teve só um - o de 1950, em que o Uruguai bateu a seleção por 2 a 1, de virada, e faturou então o segundo e até hoje o último título mundial dele. A expressão valeu para aquele momento e marcou por ineditismo e pelo choque provocado na nação. As outras ocasiões em que se tentou fazer referência a tal acidente esportivo não passaram de repetições descabidas.

Brasil x Uruguai encontraram-se dezenas de vezes, nestes 63 anos, e já houve desforra pra mais de metro. Há um aspecto, porém, que conta em demasia, e deve ser ressaltado. Naquele nefasto 16 de julho, a equipe nacional, dirigida por Flávio Costa, entrou em campo com a certeza da conquista. Era superior ao adversário, vinha embalada e badalada, e lhe bastava o empate. Ainda por cima, saiu na frente, com gol de Friaça, no comecinho do segundo tempo. Depois, Schiaffino e Ghiggia marcaram - o resto da tragédia sabemos de cor.

Agora, o roteiro é outro. Primeiro, não é Copa do Mundo. Só aí, já cai a tese do Maracanazo. A Vermelha (ex-Fúria, embora achasse mais simpático o velho apelido) mostra futebol harmonioso, envolvente, requintado e mantém supremacia internacional no mínimo há cinco anos. Não acumulou troféus, aplausos e olho gordo por acaso. Por competência atraiu sentimentos bons e inveja. Joga o fino, mesmo que se enrosque em alguns episódios, como diante da Itália em Fortaleza. Portanto, na teoria, é favorita contra o Brasil. Se der a volta olímpica, não se tratará de Maracanazo 2, injustiça dos deuses da bola, humilhação e termos de igual jaez e que só servem para preencher espaço. Será desdobramento natural de projeto apurado com esmero.

Como a base titular e o estilo continuam a espelhar-se no Barcelona, seria redundante constatar o que se sabe: trocas de passes sem pressa, paciência, um certo cinismo, deslocamentos sincronizados como balé, ousadia e regência de Xavi e Iniesta são os fundamentos do sucesso. Os espanhóis tomaram gosto por essa maneira de comportar-se em campo e, ao que consta, não vão abandoná-la tão cedo. Para sorte deles e de quem aprecia bom futebol. Ou seja, abusam do que fazíamos e nos deu fama.

Por que você acha que o torcedor brasileiro mais vaiou do que aplaudiu a Espanha? Dor de cotovelo? Concordo. No fundo, foi por reconhecimento da excelência da orquestra sob a batuta de Vicente Del Bosque. Digamos que houve certo pudor de mostrar-se maravilhado. Sabe como é: puxa vida, sempre fomos conhecidos como os melhores do mundo e agora vêm esses galegos ensinar o padre-nosso pro vigário?! Porque o vigário deixou essa reza.

Ninguém vai despencar dos assentos novos (e caros pra chuchu) do Maracanã nem escorregar do sofá, se a Espanha vier com essa tática de tique-taque - e acho que o fará até por necessidade, hoje, para economizar fôlego gasto na quinta-feira. E, mais ainda, se der certo. Também já vencemos tudo e sabemos como é bacana hipnotizar os rivais...

Há um detalhe, abordado na crônica de anteontem: a Espanha não vem de outra galáxia, tem fragilidades, expostas no choque com a Azzurra. Pode ser pressionada, existem alternativas para induzi-la ao erro e às derrapadas. Tudo que Pirlo e companheiros fizeram também Neymar e amigos podem. Basta saber se Felipão guardou carta na manga e está disposto a surpreender. Ah, claro, com um adendo: desperdiçar chances, como a Itália, será fatal. A pontaria deve ter calibragem total.

Pra terminar: raro ver o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, sorrir. Mas tem senso de humor, pois deu nota "9" para a Copa das Confederações.

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