Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

'Sem Rim' é a esperança da canoagem brasileira para Jogos de 2016

Sob batuta de técnico espanhol, Isaquias Queiroz tem chance de conquistar uma inédita medalha

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

02 de junho de 2013 | 09h01

SÃO PAULO - O nome da maior promessa da canoagem brasileira, Isaquias Queiroz, é sonoro e mistura dois personagens bíblicos: Isaac e Isaías. Mas alguns no mundo das canoas acham complicado e muitos ainda preferem chamá-lo de "Sem Rim".

Aos dez anos, Isaquias foi examinar uma cobra morta no cais de sua cidade, Ubaitaba, sentiu tonturas e caiu. Embaixo não havia água, mas cimento. "Um dos meus rins ficou comprometido e tiveram que tirá-lo. Aí ganhei o apelido de Sem Rim."

No ano seguinte, Isaquias entrou num projeto social de canoagem mantido pelo Ministério do Esporte num local dos mais indicados. Localizada à margem esquerda do Rio das Contas, na Bahia, Ubaitaba significa "aldeia das canoas" em tupi-guarani. E o garoto meio estigmatizado pelo apelido começou a ganhar elogios. "Quando eu era cadete, ganhava dos juniores. Quando era júnior, ganhava dos adultos. Em vez de brincarem por eu ter um rim só, passaram a falar que eu tinha três pulmões."

Em 2011, Isaquias confirmou que era mesmo um fenômeno. Conquistou a primeira medalha de ouro da canoagem brasileira num Mundial, no caso o da categoria júnior, em Brandenburgo, na Alemanha, na canoa individual 200m. A vitória foi das mais emocionantes, numa arrancada em que superou seis barcos nos últimos 100 metros. A última ultrapassagem, sobre o búlgaro Boyan Mihaylov, só foi identificada no photofinish. Até mesmo João Tomasini Schwertner, presidente da CBCa (Confederação Brasileira de Canoagem) há 27 anos, chorou após a angustiante espera pelo resultado histórico. "Foi uma choradeira geral. Chorou o presidente, chorou o treinador, chorou o Sebastian Cuattrin (argentino naturalizado brasileiro que conquistou nove medalhas em Jogos Pan-Americanos)", recorda o campeão.

Esporte com pouca visibilidade e escassa cobertura de mídia, a canoagem é um patinho feio do esporte brasileiro há muito tempo. Mas o esforço governamental por uma presença digna do país-sede nos Jogos de 2016 rendeu à CBCa um patrocínio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Somada à ajuda do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), essa retaguarda viabilizou a formação de um Centro de Treinamento no Yacht Clube Paulista, às margens da represa de Guarapiranga, e a contratação do técnico espanhol Jesús Morlan. Trata-se do treinador que orientou David Cal, o maior medalhista olímpico da história da Espanha, com um ouro e quatro pratas em três edições dos Jogos.

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Morlan e Cal tiveram os salários rebaixados pelo Comitê Olímpico Espanhol. O treinador resolveu então aceitar o convite do COB, e Cal o acompanhou. "A estrutura inicial do Brasil para a canoagem é boa. Fui atendido em tudo o que pedi em termos de melhorias. Eu me sinto honrado em preparar atletas da sede dos próximos Jogos. O Brasil tem poucos nomes, mas são bons. Existe o cimento para se construir a casa", diz o treinador.

Parte desse cimento, segundo Morlan, atende pelo nome Isaquias. "Isaquias é bastante melhor do que David quando ele tinha a sua idade (18 anos). Mas David trabalha como uma formiga. Se Isaquias tiver a mesma dedicação, poderá ter o mesmo sucesso", diz Morlan.

Isaquias tem uma velocidade incomum de absorção da técnica. Em duas semanas, deixou a canoa em que se faz o aprendizado e assumiu um C-1, a embarcação de competição. Seis meses depois, já estava vencendo regatas em sua categoria. "Tenho um talento que não se aprende. Absorvo muita coisa só na observação".

Os progressos de Isaquias já são evidentes. Em abril, ele conseguiu uma vitória inédita nos 200m sobre Nivalter Santos, que já foi quinto colocado num Mundial adulto.

Morlan não vê nenhum obstáculo sério que impeça o Brasil de conquistar uma medalha olímpica pela primeira vez na canoagem, um esporte em que o país tem feitos esparsos.

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