Sem saída

O futebol do interior de São Paulo tem tradição e viveu décadas de destaque, no século passado, por incomodar os grandes e por ser o principal fornecedor de talentos. Craques e craques com sotaque e jeitão caipiras ganharam o Brasil e o estrangeiro (como se dizia) com sua arte. Era comum, em todo fim de ano, os clubes da capital pescarem as revelações para transformá-las em estrelas.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

Agora esse futebol do mundo velho sem porrrrtêra está num beco sem saída. Faz tempo que suas equipes não conseguem manter-se com altivez - sem contar aquelas que já fecharam as portas e entraram no cantinho de saudade, como recitaria Fiore Gigliotti. Salvo casos em que há apoio oficial (entendam-se prefeituras) ou arrendamento para empresários (0 mais comum), a "turma do mato" vive aperto de dar dó.

Por isso, quem pode não vê a hora de começar a disputa da Série A-1 do Paulista para tirar um tiquinho o pé da lama e fazer algum caixa para aguentar o restante do ano com dignidade. Até que vinha sendo possível livrar uns trocados com a participação na elite. Mas essa fonte ameaça secar.

O Paulista, antes o mais animado torneio estadual do país, virou uma caricatura. Não emociona nem o nonno Angelo Luisi, que em priscas eras perdeu a conta das discussões por causa de futebol e que hoje até esquece de dar uma espiada na televisão para vibrar, xingar e se emocionar com seu time (adivinha qual). Não se trata de velhice. Ao contrário, é excessiva lucidez. "Ah, não vejo mesmo. Eles vão tutto se classificar", define o fã de carteirinha de Raul Tabajara, Walter Abrahão e Paulo Planet Buarque. ("Aqueles eram speaker de verdade!")

Angelo acertou na mosca. Um campeonato longo, com regulamento que não dá margem para o risco de algum dos quatro gigantes ficar fora da fase seguinte tem efeito contrário. Em vez de atrair público, atiçar a curiosidade e aguçar a sensibilidade, funciona como sedativo, relaxante. Pelo menos para o torcedor paulistano, que abre mão de ir ao estádio e guardar trocados para quando houver jogos que vão valer de verdade.

Os apaixonados que moram no interior ainda se dispõem a fazer sacrifícios, quando Santos, Corinthians, Palmeiras e São Paulo baixam na cidade ou na região. A presença dessas equipes chama a atenção, pois quebra a rotina.

Os cartolas paroquiais vêm nessas ocasiões a possibilidade de faturar algum e salgam os preços dos ingressos. Fora as exceções, de novo o efeito é decepcionante. Têm sido frequentes os estádios com clarões nas arquibancadas, mesmo em jogos contra grandes, porque o pessoal da terra ficou sem recursos para bancar o capricho. A sensação de solidão dos jogadores aumenta em jogos entre pequenos. Nesta temporada, é comum as catracas registrarem menos de 1000 pagantes. Não há Cristo que aguente um suplício desses.

Há alguma saída? Sinceramente, não sei. Cresci fascinado pelo futebol do interior, achava lindas as camisas de Botafogo, Ferroviária, América, XV de Piracicaba, Portuguesa Santista, São Bento e por aí vai. Acompanhava essas equipes porque sempre apresentariam algo de bom. Se eu pudesse, segurava o tempo e o fixava nos anos 50, 60. Mas a história é irrefreável, os ares mudam, os interesses se modificam e fica impossível manter tudo como outrora.

Não há mais como disputar um Paulista com 20 clubes. A quantidade de jogos inúteis é acintosa, contraproducente. Não é à toa que fanáticos como o Angelo se permitem "esquecer" de seu time. A constatação dói, mas o remédio para salvar o futebol paulista tende a torná-lo mais frágil.

Por que não um torneio de tiro curto e certeiro? Com menos participantes e menos desequilíbrio? Que tal seletiva que apontasse de 6 a 8 equipes para juntar-se às 4 mais fortes? O torcedor seria estimulado a apoiar a agremiação da cidade na etapa de classificação e ficaria empolgado nos casos em que se alcançasse a vaga. Daria certo? Não sei. Sei que a fórmula atual congela emoção e sangra finanças.

Golaço. O Estado deu tremenda bola dentro ao contratar o Paulo Vinicius Coelho. Já era uma honra e uma baita responsabilidade dividir espaço com Ugo Giorgetti aos domingos e com Paulo Calçade às segundas. Agora, me envaideço pra chuchu e, como diria o outro, tenho que "se esforçar" ainda mais. Bem-vindo, PVC. Num instante, vai se sentir velho de casa.

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