Sem-teto. Em nome dos Jogos

Obras ameaçam parte da população carente de Pequim, que pode ficar sem ter onde morar

Reuters, O Estadao de S.Paulo

17 de julho de 2008 | 00h00

Yu Pingju é uma pequena entusiasta da Olimpíada. Mas, se o governo levar adiante as ameaças de demolir sua casa em nome do embelezamento da cidade de Pequim, talvez ela acompanhe os Jogos das ruas.A poucas semanas do início da competição, algumas famílias ainda estão sendo retiradas de suas casas para abrir caminho para as arenas olímpicas e projetos de modernização de Pequim. Na tentativa de demover as autoridades de removê-la, Yu, que foi notificada de que deveria deixar lugar onde mora no domingo, colou fotos de Mao Tsé-tung, do presidente Hu Jintao e do primeiro-ministro Wen Jiabao na fachada da casa."Eu apoio a Olimpíada de todo o meu coração", disse Yu. "Mas estão usando o evento como desculpa para nos expulsar e construir edifícios comerciais caros no lugar", denuncia. "Eles dizem que vamos afetar a tocha olímpica, que supostamente passará aqui na frente. Como isso seria possível? O que nós fizemos de errado?", pergunta Yu, que diz não ter onde ficar, se sua casa for demolida.O Centro de Direito de Moradia e Desapropriações, com sede em Genebra, estima que 1,5 milhão de pessoas tiveram de se mudar em Pequim porque suas casas criavam obstáculo para construções olímpicas. Segundo a responsável pelo centro de pesquisas da entidade, Deanna Fowler, quem se recusa a sair é vítima de repressão e a Olimpíada, que deveria melhorar a vida da população, piora a realidade dos mais carentes. "Pessoas que protestaram, exigiram compensações ou pediram para não ser removidas enfrentaram ameaças e prisões", afirma Deanna. Segundo a pesquisadora, outra tática das autoridades é enviar a polícia ao trabalho das pessoas e ameaçá-las de demissão. "A Olimpíada está sendo usada para aumentar a repressão."O governo e os organizadores dos Jogos desmentem as acusações. "Não há base para qualquer reclamação", rebate o porta-voz do Comitê Organizador (Bocog), Sun Weide. Ele afirma que apenas seis mil famílias fizeram parte do programa de remoção. "É importante melhorar o padrão de vida da população. Com os programas de desapropriação, o espaço para cada morador aumentou de 20 metros quadrados para 60."A Anistia Internacional também reclama. Segundo a entidade, vários moradores que protestaram foram presos. Zhang Yaoyao, que teve a casa demolida para garantir a segurança perto do Estádio Olímpico, diz que a indenização não foi suficiente para que continuasse a morar no centro. Acionou a Justiça - sem sucesso. "Talvez apele às Nações Unidas."

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