Sem-teto na Fonte nova

Com o estádio interditado, áreas sob as arquibancadas que desabaram, matando 7 pessoas, abrigam famílias

Tiago Décimo, O Estadao de S.Paulo

01 de março de 2008 | 00h00

Mãos espalmadas para o céu, um tanto em prece, outro tanto em resignação, a sem-teto Maria Sônia dos Santos, de 53 anos, delega a Deus a tarefa de proteger sua família. Ele mora há dez dias com quatro filhos, seis netos, dois sobrinhos-netos, dois cães e um galo sob a arquibancada condenada do Estádio Otávio Mangabeira (Fonte Nova) - a mesma que, três meses atrás, ruiu durante uma partida, causando a morte de sete pessoas. Resignada, diz não ter escolha. "Foi o melhor lugar que arranjei para minha família até agora", afirma.Apesar da condição precária, Maria Sôniatem muita fé: "Deus segura para o resto não cair em cima da gente." Natural de Jequié, 369 quilômetros a sudoeste de Salvador, vive "há uns 30 anos" na capital baiana. Não sabe ao certo. Saiu da periferia de sua cidade em busca de uma vida melhor. Perdeu a conta de quantos lugares já tentou morar. O último ponto onde havia instalado a pequena estrutura de tábuas de compensado e folhas de papelão foi do lado de fora do ginásio anexo ao estádio, o Antonio Balbino (Balbininho). A feroz concorrência pelo espaço a obrigou a mudar para a entrada principal da Fonte Nova abandonada. Lá foi o refúgio divino que lhe surgiu.As estruturas tubulares que antes serviam para separar em filas os milhares de torcedores do Bahia que, a cada fim de semana, lotavam o estádio, agora não passam de divisórias improvisadas dos "cômodos" da morada da família da sem-teto. Entre elas, foram colocados colchões, fogareiro e roupas. Uma área é reservada para as crianças - todas menores de 8 anos. "Quando chove, cobrimos os espaços com as madeiras", conta Maria, demonstrando como faz para proteger-se do mau tempo.Do outro lado da rua, taxistas que freqüentam um ponto outrora bastante movimentado não gostam da presença dos novos moradores. Antônio Risério, de 46 anos, é apontado pela família como o mais arisco deles. "Estou perdendo clientela porque as pessoas ficaram com medo de passar por aqui", alega. As discussões entre os novos moradores do estádio, de acordo com ele, são constantes. "Eles precisam parar de beber, ir trabalhar e arranjar outro lugar para ficar."Maria, há oito anos sem trabalho, diz ter desistido de procurar ocupação. Seu genro, João Costa Silva, de 33 anos, diz que fatura "uns trocados" tomando conta dos carros que param por ali. E manda a mulher e os dois filhos, de 4 e 5 anos, pedirem dinheiro no semáforo mais próximo, cerca de 100 metros ladeira acima. As atividades são comuns aos demais familiares. João dá de ombros, quando lhe perguntam o que pensa das reclamações dos vizinhos taxistas. "Eles que vão brigar com o presidente. A gente está aqui porque não tem para onde ir", argumenta. "Ninguém é bandido, não." E relata que não tem problemas com a polícia - "são nossos amigos" -, mas que o mesmo não acontece com o "pessoal da Sucom (Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo)". Explica: "De dia, eles vêm, falam para a gente sair daqui, tudo na paz, mas de noite eles voltam e batem na gente", afirma, mostrando hematomas no braço que teriam sido causados pelos agentes. A assessoria da Sucom afirma que não há equipes de vistoria à noite e que, portanto, as acusações não procedem.Dona Maria, porém, afirma que não quer criar conflitos e, por isso, pensa em deixar o local rapidamente. "A gente está muito exposto aqui", afirma. "Já estamos procurando outro lugar aqui perto para ir."

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