Sem trégua

PARIS - O futebol não me dá trégua - ainda bem. Breve giro profissional, em menos de duas semanas, me permitiu ver partidas interessantes de torneios europeus. Organização quase impecável, jogadores badalados, estádios de primeira linha, muita gente fina (tá bom, eles também têm tipos estranhos) despertaram de novo em mim uma pitada de inveja e uma baita raiva. Com a inquietação de sempre: "Por que não podemos oferecer algo semelhante em casa?" Porque nossa cartolagem é mesquinha e, salvo exceções, tem cérebro de ervilha, como define o Paulo "Amigão" Soares...

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Mal me preparo para pôr os pés em nossa terra gentil e não é que largo essas impressões pra trás e constato que o Brasileirão está dentre os mais animados campeonatos que há? Não descobri a pólvora nem constatei o óbvio - apenas faço justiça e sem patriotada. A Copa dos Campeões é charmosa, o Calcio anda mais equilibrado nesta temporada, a Ligue Française virou uma chatice de doer. Eles ganham na ordem, no respeito ao cliente, no profissionalismo. O que não é pouco.

Mas emoção pra valer rola solta em nossos maltratados campinhos. Faltam quatro rodadas para o encerramento da Série A e três times estão com os dentes arreganhados, na briga ponto a ponto pelo título. Isso não se vê com frequência por estas bandas. Por mais que se fale em equilíbrio, na arrancada final na Itália, na Inglaterra, na Espanha, na Alemanha, em geral, há só dois times na parada, quando não está tudo definido com um mês de antecedência. Eficiência demais também entedia.

Tédio passou longe da Primeira Divisão doméstica em 2010. Talvez seja a edição mais emparelhada dos últimos anos. Arriscado cravar um favorito no trio que comanda a classificação, embora me incline um tiquinho pelo Fluminense. Com boa possibilidade de quebrar a cara daqui a três semanas e ser xingado por corintianos ou cruzeirenses. C''est la vie, para ficar no clima desta cidade exuberante, friorenta e chuvosa.

O tricolor do Muricy Ramalho é líder, com seus 61 pontos, mas vai passar a madrugada de sábado para domingo outra vez em segundo lugar.

Inevitável, porque Corinthians e Cruzeiro têm 60 e se enfrentam amanhã à noite no Pacaembu e um dos dois saltará à frente. Empate coloca todo mundo junto, mas os paulistas levam a melhor nos critérios de desempate - o equilíbrio é tamanho que a vantagem sobre os cariocas só é obtida na diferença de gols marcados, depois de igualdade em número de vitórias e saldo de gols. Para quem anda carente de mata-mata, taí um jogo pra mexer com os nervos, com uma atenuante: não será o fim de linha para eventual perdedor.

Como não estou aqui para ficar em cima do muro, ainda mais que a distância me obriga a tomada de posição, vejo o Corinthians com astral arejado. A chegada de Tite fez bem ao grupo, acalmou a Fiel, renovou confiança na conquista do penta nacional. A sequência de jogos de Ronaldo também colabora - ele não está o fino, mas contribui no mínimo para inquietar rivais. A recuperação de Dentinho também conta, como sinal de que as coisas se ajeitaram no Parque São Jorge na hora H. O Cruzeiro tem mais qualidade, mas encara uma série complicada e levou tombos preocupantes.

As teorias da conspiração entraram em ação e há quem sugira, aqui e acolá, que adversários históricos do Corinthians podem puxar o freio de mão nos desafios derradeiros. Será? Aprendi a desconfiar de tudo e a não acreditar em quase nada nem em ninguém no futebol, pois coisas esquisitas acontecem. No ano passado, por exemplo, o Corinthians foi de uma displicência atordoante diante do Flamengo, quando o São Paulo tinha alguma chance. O Grêmio botou time misto contra o próprio Fla, na última rodada, e tirou qualquer veleidade de título para o Inter.

Só espero que ninguém perca dignidade e pudor no que resta de campeonato. Por respeito ao esporte, aos torcedores e à decência. Será que equivale a eu fazer cartinha pro Papai Noel e achar que ele vai me atender no Natal?

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