Mohammed Dabbous/Reuters
Seleção da Espanha é a atual campeã mundial de handebol Mohammed Dabbous/Reuters

SEMIFINAIS DO MUNDIAL DE HANDEBOL SEPARAM FAVORITAS DAS ZEBRAS

De um lado da chave, a atual campeã do mundo, Espanha, encara a França, campeã europeia, enquanto a dona da casa, Catar, tenta passar pela Polônia

Vítor Marques, enviado especial a Doha, O Estado de S. Paulo

30 de janeiro de 2015 | 09h00

Espanha, atual campeã do mundo, e França, atual campeã europeia e medalha de ouro em Londres, se enfrentam nesta sexta-feira pela semifinal do Mundial de Handebol. O jogo pode ser considerado uma final antecipada. Já do outro lado da chave, está a 'zebra': o Catar, que encara a Polônia. Se os donos da casa vencerem, um tabu será quebrado: jamais uma seleção não europeia chegou a final de um Mundial - a primeira edição foi em 1938.

Os dois jogos serão disputados no mesmo ginásio, o moderno e imponente Lusail Hall, inaugurado para o Mundial ao custo de R$ 800 milhões. O Catar abre a semifinal e Espanha x França fecha o dia de competição, às 16 horas (horários de Brasília).

No confronto europeu da semifinal, a França pode ser considerada favorita. Foi ela quem derrotou a Espanha na semifinal do Campeonato Europeu em 2014. E neste Mundial, os franceses engataram duas vitórias convincentes, tanto nas oitavas quanto nas quartas de final.


A Espanha chegou às semifinais com muito sacrifício, graças a um gol no último segundo. Cañellas, no lance decisivo do jogo contra a Dinamarca, fez 25 a 24 e manteve o sonho espanhol do bicampeonato.

"Ganhamos de uma equipe boa e já nos vemos diante de um problema ainda maior, como é a França, que nos venceu ano passado (campeonato europeu) uma partida que tínhamos a sensação de que estava em nossas mãos", disse Manolo Cadenas, técnico da Espanha.

INTRUSO

Com uma equipe formada por nove estrangeiros, o Catar pode fazer história se vencer a Polônia. E não é uma tarefa impossível. A seleção catari faz um excelente campeonato, embora tenha pego um cruzamento mais fácil depois de se classificar em terceiro no grupo A (o mesmo do Brasil, eliminado nas oitavas).

Das seleções semifinalistas, é o Catar quem tem um dos principais goleadores da competição: Zarko Markovic, 55 gols. Outro destaque do time é o goleiro Saric, candidato a melhor jogador do torneio.

O grande trunfo da equipe do Catar é a força física da equipe, aliado ao entrosamento do grupo. Valero Rivera, técnico espanhol, montou uma "seleção permanente". Todos os atletas da seleção jogam na liga do Catar, exceto Saric, goleiro do Barcelona.

Rivera iniciou os treinos de sua equipe visando o Mundial em agosto do ano passado, enquanto os demais jogadores das outras seleções disputavam suas ligas europeias. Rivera conseguiu dar uma padrão tático à equipe, capaz de jogar de igual para igual contra qualquer seleção europeia. E, claro, pesou a qualidade técnica dos atletas naturalizados.

* O repórter viajou ao Mundial a convite da Federação Internacional de Handebol

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Desertor cubano do Pan de 2007 defende o Catar no Mundial de Handebol

Rafael Capote abandonou a delegação do seu país no Rio e rodou até chegar ao Oriente Médio, onde é destaque da equipe no torneio

Vitor Marques, enviado especial, O Estado de S. Paulo

30 de janeiro de 2015 | 09h00

Rafael Capote tinha 19 anos quando estreou, em 2007, pela equipe de handebol do São Caetano. Poucos meses antes, ele havia sido um dos três atletas cubanos que desertaram durante o Pan do Rio de Janeiro. "Minha vida pode melhorar."

Aos 27, ele agora é um 'catari' e defende a seleção do país árabe. O Catar enfrenta a Polônia nesta sexta-feira por uma vaga inédita na final do Mundial de Handebol. A vida de Capote, definitivamente, mudou. 

Quando abandonou a delegação cubana no Rio de Janeiro, ele tinha 300 dólares no bolso. Com esse dinheiro, conseguiu pagar um táxi que o levou a São Caetano, onde jogava seu amigo cubano Michel. Em 2013, quando já atuava na Espanha, o El Jaish pagou sua rescisão contratual no valor de 300 mil euros.

Capote decidiu desertar a delegação de seu país por motivos, segundo ele, apenas profissionais. Ele tinha um sonho: iniciar a carreira de jogador de handebol no Brasil como um trampolim para a Europa. "Eu queria jogar, ter meu salário e mudar de vida", disse à época.

O jogador atuou no handebol brasileiro por pouco tempo. Já em 2009 conseguiu ir para a Itália. Mas Capote se destacou, no entanto, na liga espanhola, jogando pelo Naturhouse La Rioja, onde atuou duas temporadas, até 2013.

Capote, jogador alto e de boa força física, era um dos artilheiros do time espanhol. Indiretamente, o caminho para o Catar começou na Espanha. Em 2013, Valero Rivera, espanhol, foi contratado pela seleção do Catar para ser o técnico da equipe no Mundial de 2015.

Ribera passou a observar jogadores que tinham potencial para jogar pela seleção do Catar. Capote foi um dos escolhidos. O 'projeto mundial' estava no início.

Capote e outros jogadores da seleção do Catar estariam recebendo altos salários para atuar pelo país. Além disso, ganhariam uma bonificação por vitória no Mundial.

O Catar 'contratou' todos os 16 jogadores convocados para o Mundial, exceto o goleiro Saric, que atua no Barcelona. Os outros 15 jogadores atuam na liga de handebol do Catar.

O time de Capote, o El Jaish, é a base da seleção catari: oito jogadores atuam no clube. Rivera, que vive em Doha há 20 meses, recebe, segundo publicações europeias, 800 mil euros por ano.

Esse é um dos motivos que Rivera e jogadores da seleção do Catar evitam abordar o tema naturalização de atletas nas entrevistas. Capote não fala com a imprensa nem mesmo na zona mista, local onde jogadores dão entrevistas após as partidas.

* O repórter viajou ao Mundial a convite da Federação Internacional de Handebol

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