''Sempre fui a favor da reforma do Pacaembu''

Além da inicial e de 119 jogos, Pelé e o Pacaembu têm outra coisa em comum: ambos nasceram em 1940 - o estádio em 27 de abril, o Rei em 23 de outubro. Os dois septuagenários estão em boa forma e ainda cheios de planos. Pelé fez do estádio seu palácio de 1957 a 1974, marcou nada menos que 115 gols e foi artilheiro do Campeonato Paulista em onze temporadas. Na entrada do Museu do Futebol, que deu início à recuperação da arena de futebol mais charmosa da cidade, é o Rei quem recebe virtualmente os milhares de visitantes, num monitor vertical no topo da escada da entrada. E ele é o primeiro a apoiar o projeto de reforma do Pacaembu.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Nada fazia mais sentido, portanto, do que convidar Pelé a dar aqui uma entrevista sobre esses aniversários e sobre um outro: os 40 anos da Copa de 70, quando a lenda do camisa 10 teve a mais decantada de suas façanhas. Enquanto respondia às perguntas, ele atendia aos pedidos do fotógrafo do Estado, Eduardo Nicolau, com a majestade que nunca perdeu. Foi na tarde ensolarada da última quinta-feira, poucas horas depois de ter voltado de viagem da Europa, o que dá uma medida de seu afeto pelo velho "Paca" - onde costuma pedir que seus comerciais sejam gravados.

Deitado no gramado onde tanto fez, vestido por sua própria escolha com a camisa do Santos, Pelé lançou um "Que bom seria voltar no tempo..." Antes tinha posado no tobogã e depois posou diante da fachada, onde aconteceu o inevitável: o assédio de crianças e adultos. Distribuiu sorrisos, contou piadas, fez o gesto do soco que fazia para comemorar os gols, deu uns poucos autógrafos, disse que às vezes usa boina para não ser reconhecido ("Alguns falam que fico parecido com o Milton Nascimento, mas ele é feio"). Segundo ele mesmo, porém, estava ali a trabalho - e falou a sério também sobre a próxima Copa do Mundo, na qual defendeu a presença de Ronaldinho Gaúcho, e sobre Neymar, de quem fez comparação com Robinho. Pelé está em casa.

Quando você ouve a palavra Pacaembu, em que pensa primeiro?

Em tanta coisa. Mas acho que é no primeiro jogo que fiz pela seleção aqui. Foi a final da Copa Rocca, contra a Argentina, em 1957. Nós ganhamos e a partir dali passei a ser sempre convocado para a seleção.

Você sabia que foram 115 gols em 119 jogos aqui?

Não. Puxa, dá quase um por partida.

Tem um favorito?

Difícil... Acho que aquele contra o São Paulo, nesta área mesmo. Matei no peito e dei um voleio de esquerda. Teve um outro, contra a Ponte, mas acho que foi no outro gol. O Zito bateu o escanteio, a bola veio no chão, eu entrei e bati de primeira com a esquerda. Foi tão rápido que o câmera não conseguiu pegar tudo. O Aníbal Massaini (diretor do filme Pelé Eterno) corrigiu para o documentário. Os dois gols estão lá. Mas eu fiz tantos outros aqui...

Você se lembra do jogo com o Palmeiras em 1958, que terminou 7 a 6?

Claro. Dizem que houve dois ou três ataques cardíacos na torcida naquele dia. O Aníbal e eu até tentamos localizar as famílias.

E da despedida, em 29 de setembro de 1974, o que você se lembra?

De tudo. Não fiz gol, mas ganhamos de 1 a 0 e eu fiquei muito emocionado. Sempre fui chorão, né?

Havia uma concha aqui onde é o tobogã. Gostava dela?

Eu me lembro. Gostava, sim, mas sempre achei que se devia fechar a arquibancada, dar a volta no campo. Seria muito legal. Acabo de vir da Europa e lá todos os estádios são assim, bonitos e modernos. Sempre fui a favor da reforma do Pacaembu.

Você chegou a vir aqui como torcedor?

Vim várias vezes, como na época do Cosmos. Mas sempre é muito difícil, por causa do assédio. Antes de ser jogador, nunca vim, porque morava em Bauru. Às vezes vinha visitar minha tia no Belenzinho e passava aqui do lado. Na casa dela eu jogava futebol de botão com o time do Corinthians, aí inventaram que eu era corintiano...

O Corinthians que foi sua maior vítima aqui...

Mas teve outros... Uma vez fiz oito gols num jogo só, contra o Botafogo (de Ribeirão Preto), que vencemos por 11 a 0. Quando soube que o Santos ganhou de 10 a 0, na quarta-feira, logo perguntei quem tinha feito os gols. Achei que um dos meninos tinha feito quatro ou cinco...

Esse oba-oba não pode atrapalhar o time?

Pode, mas eles estão conscientes e são realmente muito bons.

O Neymar pode ser melhor que o Robinho?

Eu acho que o Robinho na mesma idade não batia tão bem na bola como o Neymar. Lembro que ficávamos falando para ele treinar, chutar com a esquerda, etc.

Você disse que ele já poderia ir para a seleção. A seleção preocupa? Kaká não está bem, Adriano está com problemas, Ronaldinho não vai.

Eu estava até conversando com o Kaká sobre isso em Madri agora. Acho que o time é forte, a seleção sempre é forte em Copas, mas faltam jogadores que tenham ido a uma Copa ali. O Ronaldinho poderia estar entre os 23, por sua experiência e por sua qualidade. Mas ele mesmo se ''desconvocou''. Agora que o time teve ótimos resultados sem ele e está praticamente definido, voltou a jogar bem. Entendo o Dunga. Mas acho que ele poderia estar no grupo, sim.

São 40 anos da Copa de 70 agora. Você chegou a ser contestado antes, não?

Acho que havia alguma dúvida porque em 1966 eu tinha me machucado. E tinha gente que achava que não dava para eu, Tostão e Rivellino jogarmos juntos, porque tínhamos função semelhante nos nossos times.

E quem juntou vocês? O Zagallo?

Para ser exato, foi o Saldanha. Ele fez a base, ele bancou essa ideia de usar todo mundo. O Zagallo foi um pouco como Lula em relação ao Fernando Henrique. Ele não mexeu no que estava dando certo, ele deu continuidade.

O Jairzinho fez sete gols, mas não é tão lembrado como os outros. Por quê?

Talvez porque antes da Copa não se apostava tanto nele. Mas ele foi extraordinário. E podia ter dúvida sobre mim, mas o que está lá é que fui eleito o melhor jogador da Copa de 70.

Sentiu confiança no título desde o primeiro jogo?

Já nas Eliminatórias a gente sentia que ia longe. Eu virava para o Carlos Alberto, o Gérson e o Brito, os mais veteranos, e dizia ''Olha, é nossa última Copa, temos que ser campeões''. Todos pensavam assim. E o time jogava sério, tinha um conjunto melhor ainda que o de 1958 (campeão do mundo na Suécia). Esse negócio de já-ganhou não dá certo. Falei isso para o Kaká: quando cheguei a Madri, parecia que o jogo com o Lyon ia ser fácil. E eles foram desclassificados (o empate de 1 a 1 garantiu a vaga para os franceses).

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