Eduardo Nicolau/AE
Eduardo Nicolau/AE

'Sempre tive segurança do que sou'

Jogador do Real Madrid, chamado por muitos de temperamental e até de mascarado, diz que as pessoas não o conhecem

Entrevista com

Mateus Silva Alves, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2012 | 03h04

SAINT ALBANS - Em 2008, Marcelo esteve na Olimpíada de Pequim e sentiu na pele a decepção de voltar para casa sem o ouro, apenas com o bronze. Quatro anos mais tarde, aqui está ele, na Inglaterra, para sua segunda tentativa olímpica, agora como um dos três jogadores com mais de 23 anos que o regulamento dos Jogos permite inscrever.

A trajetória do lateral-esquerdo do Real Madrid na seleção brasileira sempre foi cheia de acidentes, incluindo um período de "esquecimento" a que Mano Menezes o submeteu por motivos até hoje não muito bem explicados. Acredita-se que o gaúcho deixou de convocá-lo por acreditar que ele não se empenhava muito para defender o time nacional.

Em entrevista exclusiva ao Estado, Marcelo falou sobre esse período de afastamento da seleção, jurou que tem o maior prazer em defender a equipe e renegou a fama de jogador explosivo que carrega. O lateral carioca claramente não gosta de ouvir falar nisso, muito menos quando dizem que ele é mascarado. Aí Marcelo se irrita e garante que isso é coisa de quem não o conhece e não tem autoridade para falar sobre ele.

Eis os principais trechos da conversa com o lateral-esquerdo que muitos especialistas, principalmente espanhóis, consideram o melhor do mundo:

O Brasil é sempre favorito em qualquer competição, mas nesta Olimpíada o favoritismo parece maior, até pela ausência da Argentina. Você também vê assim?

Querendo ou não, os torcedores sempre vão colocar o Brasil como favorito e vão dizer que temos de ganhar sempre, mas eu não sei dizer se é melhor ou pior sem a Argentina. Eu sei que a gente está com muita vontade de ganhar, eu particularmente já disputei uma Olimpíada e fiquei com aquele gostinho na boca de quase ter ganho. Ganhamos uma medalha, a de bronze, mas a gente queria a de ouro. Mas o importante é que os jogadores já estão com o espírito olímpico, decididos a lutar pelo título.

O que você pode dizer sobre o time da Espanha?

Conheço bem os jogadores da Espanha que vão disputar a Olimpíada e sei que a maioria deles está jogando na Primeira Divisão. É uma seleção muito boa, com vários jogadores que estão se destacando em suas equipes, mas temos jogadores que estão no mesmo nível.

Será o maior rival do Brasil na luta pelo ouro?

As pessoas botam isso, a imprensa diz, mas nós não pensamos em quem é melhor ou pior.

A preparação da seleção para a Olimpíada de Londres está sendo melhor do que a que foi feita para os jogos de Pequim?

Pode ser que agora esteja um pouco melhor, mas eu realmente não vejo muita diferença de uma seleção para outra em termos de preparação.

Ficou alguma lição daquela decepção que foi a derrota na semifinal para a Argentina (placar de 3 a 0)?

A gente não tem como tirar algo dali porque já se passaram muitos anos. Depois do jogo a gente até falou que errou, mas vontade do grupo não faltou, nem determinação. Não temos de ficar lembrando daquilo.

Doeu muito voltar para o Brasil sem o ouro?

Claro que doeu voltar para casa com o bronze, que não é uma coisa que qualquer seleção consegue, mas a gente queria a medalha de ouro. Então foi chato.

É um alívio não ter a Argentina de Messi pela frente?

Não, se pudesse jogar contra ele de novo eu jogaria feliz da vida. Eles (os argentinos) não estarem aqui não muda nada.

Muitos torcedores acham que você é temperamental demais e a expulsão no finalzinho do amistoso contra a Argentina, em junho, reforçou essa impressão. Ela é justa?

Quem fala isso, ou pensa, muitas vezes me vê pela tevê e não me conhece, não fala comigo, não sabe como eu sou. É muito difícil tirar conclusões por algo que aconteceu num jogo entre Brasil e Argentina. Pouca gente sabe o que é jogar pela seleção contra a Argentina. Não digo nem que estejam procurando culpado pela derrota, mas falam por falar. Admito que não é certo um jogador de seleção ser expulso, mas já falei em uma entrevista que só vai saber o que a gente sente quem está lá dentro, vestindo a camisa da seleção contra a Argentina. Quem não está fala meio que da boca para fora, tentando desestabilizar, agredir o atleta.

Então é um erro dizer que você é uma pessoa explosiva?

Tenho a opinião de que é errado algumas pessoas acharem que eu seja como falam aí, explosivo. Quem me conhece sabe o que eu sou.

Mas não são poucos os que pensam isso. Você em algum momento já pensou em mudar seu jeito de ser ou seu comportamento em campo?

Nunca. Sempre tive segurança do que sou.

Por que alguns dizem que você é um jogador mascarado?

Não sei, eu é que pergunto para você: Por quê? Mas tenho certeza de que há muito mais gente que sabe que eu não sou assim. Coisas como essa não me afetam. Para atrapalhar tem gente pra caramba.

Durante o período em que você ficou sem ser convocado para a seleção, você teve receio de nunca mais voltar a ser chamado?

Claro que sim. Todas as vezes em que saía uma lista e eu estava fora eu me preocupei. Aí eu tentava mudar alguma coisa para tentar melhorar.

Naquele período você procurou o Mano para conversar?

Não, só me preocupava em jogar o que eu sei e voltar a ser chamado.

E depois de ser convocado de novo? Vocês conversaram?

Sim, a gente conversou. Mas não teve nada de mais, como as pessoas falam.

Essa conversa ajudou você a se estabilizar na seleção? Afinal, desde então você não deixou mais de ser convocado.

Muito, foi muito importante. E agora eu espero continuar na seleção o máximo que puder.

Se a seleção for campeã olímpica, os jogadores que formam o grupo ganharão força para disputar a Copa do Mundo de 2014?

Não sei dizer exatamente, mas acho que, se o time ganhar, isso dará um empurrãozinho. Não sei se vai ser todo mundo convocado, mas o título olímpico vai nos ajudar a estar mais próximos de uma convocação para a Copa do Mundo.

Você já se vê disputando uma Copa no Brasil?

Claro que eu penso em jogar uma Copa do Mundo, ainda mais no meu país, mas ainda falta muito. Até lá tem Olimpíada, tem Copa das Confederações, ainda tem muita coisa para acontecer. Tenho muita coisa para aprender, quero continuar nesse caminho.

Você é muito elogiado pela imprensa espanhola e pelo técnico do Real, José Mourinho, mas em alguns jogos importantes ele deixou você no banco. O Mourinho faz um rodízio entre vocês?

Ah, isso é melhor perguntar para o Mourinho.

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