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Antero Greco
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Ser humano

Caro amigo, relembre comigo dois episódios recentes dos gramados da vida. O primeiro: o rapazinho novo comemora o gol contra o rival tradicional com as mãos cruzadas e os anulares em riste. O outro: o astro da bola mundial perde a dividida na área, fica fulo, passa uma rasteira no adversário, dá-lhe um sopapo, leva o vermelho e sai de campo com cara de tonto.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2015 | 02h05

O que essas cenas têm em comum, fora a dose de má educação e ausência de fair-play? São reações imprevisíveis, incontroláveis, provocadas por destempero emocional. Criticáveis, porém humanas. Tão banais na rotina de qualquer um, mas que aos poucos rareiam como a água no ambiente pasteurizado e insosso em que se transforma o futebol.

O caso inicial teve como protagonista Gabriel Vasconcelos, artilheiro da Copinha, encerrada no domingo com a nona conquista do time dele. Cara de menino que fica vermelho de vergonha ao dar entrevista, já nem se sente à vontade para falar da maneira um tanto tosca como festejou o gol diante do São Paulo, na semifinal do torneio.

Na hora da alegria, veio-lhe em mente o gesto de anos atrás feito por Cristian - agora de volta ao Parque São Jorge - ao vibrar com gol também contra os tricolores. Gabriel não se tocou da polêmica de então e repetiu a coreografia, se pudermos assim defini-la.

Teve gente que não gostou, por considerá-la ofensiva, agressiva, capaz de atiçar a ira de fanáticos de arquibancadas. Num primeiro momento, fiquei do lado de quem achou que foi só má-criação. Depois, refleti e cheguei à conclusão de que o mundo não ruiu por causa daquilo. O destino de ninguém, no estádio ou fora dele, se alterou por um movimento de dedos que, em nossa cultura, tem sentido obsceno. (Aliás, o que é ou não obsceno?)

Então, pra que o drama? Qual a razão para as lições de moral? Pra que tolher, logo de cara, a veia satírica do moço? E quem não foi malcriado com 18 anos? Uma distorção dedicar mais tempo aos dedos das mãos de Gabriel do que aos dos pés que fazem belos gols.

O segundo incidente aconteceu no fim de semana, em jogo do Córdoba com o Real Madrid, pelo Campeonato Espanhol. A propósito: você gosta do Cristiano Ronaldo? Eu gosto. O português joga muito, faz gols de todo jeito, é um dos melhores do time, um gigante na geração dele. Sem contar que se trata também de personagem singular e com a vaidade pra lá de exagerada. Tão exagerada que é comum vê-lo conferir a própria imagem nos telões dos estádios e não ter um fio de cabelo que saia do lugar durante os jogos. Nem fica suado. Parece um pouco mala.

Ora pois, agora curto mais o gajo. Justamente por ter mostrado um lado destrambelhado, menos produzido e com grande carga de sinceridade. Cristiano é que partiu para a disputa de bola a que me referi no primeiro parágrafo da crônica. Chegou depois do zagueiro Edimar, em quem aplicou uma rasteira e tanto. Na sequência, tentou mesmo dar um sopapo em outro adversário, bateu boca com o goleiro. Foi um barraco daqueles.

Ao sair de campo, com ar altivo - de forgado, como se dizia no Bom Retiro - de quem não sabia por que levara a advertência, ainda alisou o escudo que representa o título mundial de clubes conquistado em dezembro. Uma forma de mostrar para a torcida local o quanto a equipe dele é importante, ao contrário da turma da casa. Uma bobeira e tanto, comportamento de moleque de rua.

Vi Cristiano derrubar a máscara de assepsia que o cobre, deu um bico no estilo certinho, perfumado que se assemelha a de um boneco de cera. O sangue luso falou mais alto. Assim como Gabriel Vasconcelos foi mais o adolescente que veio de Porto Velho e não o aprendiz de celebridade. E gosto de gente, de quem falha como eu, como você e como o papa. Não gosto de super-heróis.

É pênalti! Na coluna de segunda-feira, falei do "paraguaio" De Arrascaeta, agora no Cruzeiro. O moço é sul-americano, só que uruguaio.

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