Ser humano, seja humano!

Opção sexual? Está aí uma expressão da qual discordo radicalmente. Dá a impressão que a pessoa tem a possibilidade de escolher - assim como escolhe a roupa, o corte de cabelo ou o carro - ser hétero, homo, bi ou qualquer outra definição do gênero. O livre arbítrio, nesse caso, é tão presente quanto na definição de ser canhoto ou destro, alto ou baixo, branco ou negro.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2011 | 00h00

Agora, imaginem uma realidade hipotética, na qual o ser humano pudesse, de fato, escolher sua orientação sexual. Por que alguém escolheria, por livre e espontânea vontade, ser homossexual? Já pararam para pensar nas dificuldades e transtornos que marcam a vida dos gays? Por traz daquele comportamento alegre existe muita repressão e preconceito, mazelas que ferem a alma de qualquer ser humano.

Em razão disso, muitas vezes eles precisam guardar segredo - "ficar no armário" -, pois, se revelam sua orientação, correm o risco de serem discriminados pela família, pelos amigos e pelo mercado de trabalho. Enfim, por uma sociedade hipócrita e intolerante.

Tudo isso só aumenta os méritos e a dignidade de Michael, jogador do Vôlei Futuro, que na sexta-feira foi vítima dessa faceta nojenta e primata do ser humano. Aos gritos de "bicha, bicha" e outros termos impublicáveis, parte da torcida adversária tentava ofendê-lo.

E conseguiu, tanto que Michael reagiu. E nesse momento o atleta mostrou sua grandeza. Ao invés de confrontar os ignorantes que urravam feito ogros, Michael assumiu que é gay e se dispôs a enfrentar todas as barreiras citadas anteriormente. Tudo para fazer o pobre ser humano refletir sobre seus valores e tentar impedir que outros passem pelo mesmo constrangimento. Nem mesmo a utopia de sua causa foi suficiente para detê-lo.

Sim, utopia. Infelizmente constatamos que o problema não está relacionado simplesmente a eventuais falhas no processo de educação e esclarecimento das pessoas. Temer e, consequentemente, ter dificuldade para lidar com o diferente parece estar em nossa essência. E temos presenciado esse tipo de situação com frequência preocupante nos ambientes esportivos.

O caso de Michael foi apenas o mais recente. Vale lembrar as inúmeras ocorrências de atletas negros que são vítimas de preconceitos nos campos de futebol da Europa. Há poucas semanas, Roberto Carlos protagonizou um desses acontecimentos, quando foi chamado por um torcedor russo que lhe ofereceu uma banana.

O Brasil não fica atrás. Durante muito tempo, parte da torcida do São Paulo fazia questão de não gritar o nome de Richarlyson. Há quem diga que esse grupo chegou a pedir dinheiro para mudar de comportamento, o que evidencia que não se trata de uma discussão de sexo, mas sim de caráter.

Juiz ladrão. Evidentemente é preciso ter bom senso. Ninguém deseja que o comportamento do torcedor em uma arena esportiva seja o mesmo de um apreciador de ópera no Teatro Municipal. O "juiz ladrão", o "técnico burro" e os palavrões que expressam descontentamento e indignação fazem parte do contexto. O que não se pode aceitar é que se use o anonimato imposto pela multidão para camuflar gestos e atitudes que não são apenas deploráveis, são criminosos.

Lembro-me de meu pai, que tanto pegou no meu pé durante minha adolescência para que me esforçasse para não mudar de comportamento diante de um grupo. Ele não cobrava apenas educação, cobrava personalidade do filho. E estava coberto de razão. Valores morais deveriam prevalecer tanto na reflexão que marca momentos de solidão quanto no êxtase do coletivo.

Parabéns, Michael!

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