Será por WO?

Do jeito que vai, o campeão brasileiro deste ano o será por WO. Perdi a conta de quantas rodadas tiveram a seguinte situação: o Corinthians perdeu ou empatou, mas continuou líder porque seus concorrentes não tiveram a competência de vencer. Foi o que aconteceu no último fim de semana. Ninguém quer ganhar? Ainda assim, há quem diga que sempre houve jogos ruins e que este Brasileirão é o melhor dos últimos anos, até pelo fato de ainda ter a esta altura pelo menos sete candidatos ao título. Mas como, se nenhum time joga o fino, se a irregularidade é a norma, se apenas lances isolados dão alento à maioria dos jogos? Como, se a prosa do jogo é escrita com chutões, trombadas, levantamentos a torto e a direito, mais a torto do que a direito? Não é preciso ir ao exterior buscar um campeonato equilibrado pelos méritos, pela técnica: aqui mesmo no Brasil já foi assim.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2011 | 00h00

Já me cansei de observar neste espaço que o tal complexo de vira lata do jogador brasileiro já não existe há muito tempo. Mesmo quando essa expressão foi cunhada por Nelson Rodrigues, era uma referência ao estado de descrença causado pela derrota no Maracanã para o Uruguai na final da Copa de 50. Aquela derrota, na verdade, tinha sido causada pelo já ganhou, pela desmedida crença na supremacia nacional, como Pelé notou. Ou seja, a frustração do otimismo ufanista é que deu o "bode" apontado pelo dramaturgo, a sensação de que os europeus é que eram modernos e fortes - até que Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos e companhia provaram o contrário. Agora, depois de cinco títulos em Copas e nada menos que sete títulos de melhor jogador do mundo para brasileiros entre 1994 e 2006 (Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e Romário), o mal é de novo esse, como percebeu Tostão: o complexo de superioridade, a noção de que o brasileiro é em essência melhor, bastando apenas ter vontade ou "comprometimento".

Daí o jogo com a Argentina hoje, com atletas que atuam apenas em território nacional, ter criado uma expectativa: o duplo confronto com os "hermanos" teria capacidade de demonstrar que o problema da seleção brasileira é ser formada por jogadores "estrangeiros", milionários mimados que são celebridades na Europa e não têm amor à camisa canarinho. Como Neymar e Ganso ainda estão por aqui e Ronaldinho retornou à pátria, as chances de supostamente comprovar a tese seriam maiores. Acontece que os fatos recentes apontam no outro sentido: a última grande seleção brasileira, a de 2002, era quase toda feita de "estrangeiros". O que vale, afinal, não é onde o atleta está, mas se tem talento ou não. É preciso separar a propaganda das mídias mancomunadas com a CBF ou simplesmente fisiológicas, sem o menor senso crítico, e o panorama real. Este é o de um punhado de novos talentos ainda por amadurecer.

Lembro quando Mano Menezes assumiu a seleção e, diante da grita dos torcedores por renovação (já que Dunga preferiu levar um time com média de 28 anos de idade para a Copa de 2010, coisa que a grande maioria só foi enxergar depois do fiasco diante da Holanda), simplesmente parou de chamar bons jogadores experientes. Perguntei: "desconvocaram" a experiência? Cadê os responsáveis por fazer a passagem gradual de uma geração para outra? O tempo e os resultados obrigaram Mano a chamar Lúcio, dar nova chance para Marcelo, apelar à fama de Ronaldinho - de novo a principal estrela da CBF em campanhas mundo afora. Mas isso ainda é insuficiente para ter um time consistente, capaz de vencer adversários de primeira linha, não apenas bater Gana por 1 a 0 com um jogador a mais. Vamos deixar o oba-oba patrioteiro de lado?

A nota boa do Brasileirão é o reaparecimento dos artilheiros, como Borges (Santos) e Damião (Internacional), não por acaso dois times em constante ascensão. Mas isso ainda é pouco para compensar um campeonato com partidas que chegam a 40 faltas. Ontem, no empate do Barcelona com o Milan, foram cometidas apenas seis no primeiro tempo. Mais passes, dribles e gols, menos erros, faltas e chuveirinhos - eis o que qualquer espectador que realmente ama o futebol deseja no momento. Que vença o melhor, não o menos ruim. Que não seja por WO.

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