Sessão bocejo

A Globo costuma mostrar filminhos bacanas no meio da tarde. Passatempo para ajudar na digestão e para segurar a audiência das novelas da noite. Mas ontem o horário da matinê foi reservado para um teste de paciência e sessão de resistência ao sono e pesadelo. Que joguinho marreta a seleção fez na Suíça! Não se salvou nem com a vitória por 2 a 1, que veio no finzinho, com o gol contra. Por ironia, a infelicidade do rapaz acentuou a dimensão da incompetência patrícia.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2012 | 03h05

Resultado enganoso, útil apenas para os amantes de estatística de ocasião. Na lista de jogos do Brasil estará cravado o triunfo sobre a Bósnia como mais uma proeza da era Mano Menezes. Mas na prática o que se viu no estádio de Saint Gallen foi outra apresentação arrastada, modorrenta, indolente da equipe anfitriã da próxima Copa. Uma chatice.

No papel, não consta nenhum cabeça de bagre na lista dos convocados. Todos são titulares em seus respectivos clubes, no Brasil ou na Europa. Tem até jogador que já foi eleito melhor do mundo. Com a bola rolar, a história se modifica. O grupo de artistas vira um bando de peladeiros, com as exceções costumeiras. Não cola nem a conversa de que sumiram adversários frágeis hoje em dia, que o futebol evoluiu e o blablabá surrado para explicar frustrações. Os bósnios não são ruins de bola e os brasileiros continuam a jogar aquém do esperado.

Não se trata de má vontade com Mano e turma. É constatação de que não engrenou. A tolerância acabou na Copa América do ano passado, no festival de pênaltis errados contra o Paraguai. Amenizar agora a análise soa como tentativa de enganar o leitor, representa menosprezo à inteligência de quem curte futebol e ainda nutre alguma paixão pela seleção. É tão falso quanto defender o aquele cartolão dono do poder.

Mano tem discurso contido, recheado de palavras pensadas e frases aparentemente rebuscadas. Mostra controle que faltava a Dunga no contato com a imprensa. Mas o conteúdo é ralo e o pensamento nunca surge com clareza. Ainda não lhe cabe a pecha de Rolando Lero por ostentar semblante sério e não ter o estilo gaiato de Sebastião Lazaroni. Só que há semelhanças nas justificativas.

O bom senso escancara que, a pouco mais de dois anos da competição, não faltam estádios ou a Lei Geral da Copa - que, ao que tudo indica, vai passar quase do jeitinho que a Fifa queria, embora o Governo tenha feito jogo de cena. Falta também um time. A seleção tem uns quatro nomes certos: Daniel Alves, Thiago Silva, Marcelo e Neymar. No mais, é possível afirmar que há vagas abertas, do gol ( Julio Cesar atualmente se vale do currículo) ao meio e ao ataque. Não se espera já um "grupo fechado", com o tempo que há pela frente; seria um erro. Assim como é uma temerário, a esta altura, citarmos só quatro jogadores como confiáveis; o ideal seriam ao menos sete.

Mano precisa definir o que espera do meio em diante, tanto dos marcadores como dos "maestros" e finalizadores. Um caso acima de todos chama a atenção: Ronaldinho. A cada nova oportunidade, demole trecho do passado brilhante. Não se pode admitir que o mais experiente e premiado do grupo se limite a jogar numa pequena faixa do campo e gaste a maior parte do tempo com passes curtinhos, de lado, em ritmo de treino, em movimentos de jogador comum. Raras as tentativas de drible, escassas as arrancadas para a área, atrevimento zero!

O Gaúcho sintetiza a seleção: todos sabem que sabe jogar, mas não sabe quando - nem se - a qualidade reaparecerá. É duro torcer no escuro.

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