Sichuan, 100 dias depois

Na China central, fantasma do tremor permanece na repressão policial, nos escombros e nas vidas abaladas

O Estadao de S.Paulo

24 de agosto de 2008 | 00h00

Cerca de cem dias depois do terremoto que abalou a província de Sichuan, na região central da China, e motivou um sentimento de nacionalismo às vésperas da Olimpíada de Pequim, os locais atingidos continuam à espera da reconstrução de prédios e estradas. O Estado visitou dois desses locais: a cidade de Dujiangyan, a 60 km de Chengdu, capital da província, e uma aldeia em sua periferia, Juyuan. O cenário é desolador. As marcas do tremor de 12 de maio estão em toda parte."Devagar", eis como responde Zeyong Yi à pergunta sobre o andamento das obras em Juyuan. Ele é dono de uma loja de chá ao lado da escola de ensino médio que desabou inteira, matando cerca de 600 pessoas. Sua filha, Sha Yi, sobreviveu ao desastre. O terreno onde ficava a escola, já quase sem entulhos, está cercado. Um grupo de sete policiais faz a vigilância do local. Quando o repórter fotográfico Nilton Fukuda começa a tirar fotos, eles se aproximam e exigem que ele as apague. Fukuda conseguiu recuperá-las com os recursos tecnológicos da câmera.Assim que os policiais se afastam, mais moradores rodeiam a equipe do Estado, curiosos com a presença e ansiosos para mostrar fotos e vídeos que fizeram com seus celulares. As imagens da escola arruinada e do pânico ao redor foram feitas nos minutos seguintes. A polícia chinesa apagou muitas delas nos dias seguintes ao acidente, mas os moradores também conseguiram preservá-las. Dizem acreditar que, depois da Olimpíada, o governo vai acelerar as obras ali.Enquanto vende alguns pacotes de chá, entre eles alguns pequeninos com um coração em vermelho e as inscrições "Superando o desastre", Zeyong consegue dizer rapidamente seu nome e nos contar o que viu. Afirma que passou horas socorrendo pessoas e retirando pedras. Aponta para um homem a alguns metros e diz que ele perdeu a filha na queda da escola. O homem, que antes mostrara fotos da destruição, baixa os olhos nesse instante e balbucia algumas palavras. "Ele está dizendo que prefere não lembrar aquele dia, que só pode olhar para a frente", diz Zeyong.A rua ainda está suja e a maioria dos prédios, abandonada. Tendas espalham-se pelas travessas com alguns abrigados. Entre dezenas de lojas e casas vazias ou derrubadas, há aquelas que seguem funcionando. Alguns fazem questão de posar para foto diante de seus estabelecimentos. O motorista de táxi que nos levou até ali, Xiaoyang Lin, conta que esteve no mesmo lugar nos dias seguintes à tragédia para levar feridos até o hospital de Chengdu. Três meses depois, está de volta e diz que a única diferença é que mais destroços foram removidos. Vários acessos estão bloqueados com placas azuis que dizem "passagem proibida".Retornamos à estrada para Dujiangyan. No caminho, vemos alguns caminhões carregados de entulho e diversos veículos do Exército. Ao chegar ao centro da cidade, vemos mais prédios trincados, inclinados e abandonados. Terrenos baldios estão ocupados por dezenas de grandes barracas azuis com abrigados, mas não nos permitem chegar mais perto. Logo adiante, o hospital está destruído quase totalmente. Xiaoyang sugere uma rua onde muitos morreram; ali seria possível fazer fotos rapidamente sem a polícia ou o Exército perceber. A rua é totalmente dedicada a lojas de decoração e reforma, e algumas ainda funcionam, exibindo cerâmicas e azulejos na calçada. A maioria foi abandonada. Do outro lado da rua, prédios inteiros desapareceram. Um deles, parcialmente destruído, revela em seu interior uma janela com desenhos ornamentais em vidro fosco.Seguindo mais um pouco, informa Xiaoyang, há uma ponte com controle de tráfego. Só pessoas autorizadas e caminhões de entulho podem passar; as estradas ali estão semidestruídas. Ele aponta para a bela cordilheira de montanhas que separa Dujiangyan da cidade vizinha, Wenchuan, epicentro do terremoto que atingiu 8 graus na escala Richter, matou mais de 40 mil e feriu mais de 270 mil pessoas em toda a província de Sichuan. O próprio governo informa que o número pode ser maior, tal a quantidade de soterrados.O sentimento de "Jiayou, Zhongguo!" (Força, China!), o grito que marcou a Olimpíada de Pequim, nasceu com a adesão à ajuda às vítimas de Sichuan. As cidades esperam agora que ele retome sua força.

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