Silêncio ensurdecedor

Falou-se tudo, ou quase tudo, sobre Sócrates nos últimos dias. E nada mais justo, pois trata-se de um dos melhores jogadores da história do futebol brasileiro e que divide com Roberto Rivellino a honra de estar no alto do pódio daqueles que vestiram a camisa corintiana.

WAGNER VILARON, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2011 | 03h08

Minha homenagem a ele, porém, não está na lembrança de seus gols ou na elegância de seus passes. Porque admirava Sócrates dentro do campo, mas o invejava fora dele.

Em um momento no qual o futebol vive a chatice de uma tal "ética do boleiro", segundo a qual o drible, que deveria ser parte do espetáculo, é encarado como uma ofensa à honra do driblado, e vê a proliferação do bibelô, aquele atleta mediano, com futebol nota 5,5 e marra nota 10, Sócrates destacava-se pela personalidade que o fazia destoar no campo e no verbo.

O "Doutor" não precisava de um carrão importado ou de uma mala de grife francesa para se impor no grupo. Bastava falar. E falava, sobre quase tudo. E que se danasse a tal ética. Colecionou desafetos por causa de seus posicionamentos? É bem provável. Mas Sócrates era daquele tipo de ser humano que adorava ser querido, mas achava indispensável ser respeitado.

No domingo, minutos antes de o clássico contra o Palmeiras começar, foi impossível não lembrar do mestre Armando Nogueira escrevendo sobre o milésimo gol de Pelé. Quando todos imaginavam e torciam para que o feito ocorresse em uma jogada espetacular, como tantas protagonizadas pelo Atleta do Século, Pelé chegou à histórica marca em uma cobrança de pênalti.

Em meio à frustração coletiva, mestre Armando consolou a todos ao dizer que não poderia ser melhor, pois aquele lance paralisou o jogo e permitiu que todos as atenções estivessem voltadas ao momento.

Não tenho a intenção aqui de romantizar a perda de Sócrates. Ele morreu, vítima de um vício que afasta de sua figura qualquer áurea de santo ou bom moço e a aproxima do tal "maloqueiro", cantado em prosa e verso pela fiel torcida.

No entanto, não vejo como algo negativo o fato de sua morte ter ocorrido exatamente no dia em que o Corinthians iria a campo para sagrar-se pentacampeão brasileiro. Muito menos de o jogo acabar empatado em 0 a 0. Esta coincidência, que para muitos tirou um pouco da vibração pela conquista, ajudou a registrar para sempre quem foi Sócrates na história do Corinthians e do futebol.

Sim, porque daqui a 10, 50, 100 anos, quando forem buscar imagens que marcaram o jogo que definiu o título de 2011, não mostrarão gols ou grandes jogadas. Seja qual for o editor, este será obrigado a mostrar a cena dos 11 jogadores do Corinthians posicionados no centro do gramado, com o braço direito erguido e o punho cerrado, seguidos por mais de 40 mil torcedores que lotavam o Pacaembu. Diante disso, a pergunta se fará inevitável: por que os atletas estão fazendo esse gesto? Pronto, Sócrates não será esquecido pela história.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.