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Antero Greco
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Silêncio! Homens jogando

Lembra do pôster clássico da enfermeira a pedir silêncio? Era presença obrigatória nas paredes de consultórios, prontos-socorros e hospitais que se prezassem. Impunha respeito, intimidava as pessoas, ao alertá-las de que se tratava de lugares sérios, em que o barulho atrapalhava os trabalhos.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h06

A imagem atemorizante dos tempos de infância me veio em mente ao saber que o consórcio que assumiu o controle do Maracanã pretende baixar normas de comportamento para as torcidas. Em linhas gerais, a intenção é a de proibir entrada de bandeiras com mastros de bambus, assim como banir surdos, bumbos e outros instrumentos musicais das dependências do remodelado estádio.

Vai além: o público deve ficar sentado em seus devidos lugares e trajado adequadamente, ou seja, sem tirar a camisa. Chega de dorsos nus nas arquibancadas. Não condizem com as linhas elegantes da arena, estão contra os novos ares que soprarão por aqui após a disputa do Mundial de 2014. Compostura precisa dar o tom ao espetáculo protagonizado dentro de campo. Etc.

A notícia se espalhou logo por sites e jornais, com os mais variados comentários. Os responsáveis pela praça esportiva alegam que há intenção de diminuir violência e depredações, e por consequência aumentar o conforto dos usuários. Qualquer um com bom senso concordará com a ideia de acompanhar uma partida em segurança.

O xis da questão não está nas empresas que compõem o consórcio, mas no exagero. Cartilha boa só a mítica Caminho Suave, que durante décadas alfabetizou milhões de brasileiros. De resto, em geral são antipáticas e carregam ranço autoritário. Sobretudo as que se propõem a ditar regras para frequentadores dos campos de futebol e tentam domar o que tem de mais espontâneo.

Estádio é lugar para extravasar alegria, para catarse popular, espaço para lavar a alma e para confraternização sem preconceitos. Tudo bem tentar uma certa ordem, desde que não roube o espírito de transgressão do local. Não está longe o tempo em que palavrão dará processo e cadeia, ou em que vibrar com gol fora dos padrões significará a imediata exclusão do infrator.

Rituais e preceitos diferem, de acordo com o ambiente. Templos religiosos, por exemplo, pedem recolhimento e trajes discretos. Desagradável ouvir alguém falar ao celular num teatro, num cinema, numa sala de concertos. Velórios, tribunais, cerimônias oficiais têm seu código de etiqueta e é de bom-tom segui-las. Os estádios também tem suas idiossincrasias.

Não ao caos e ao desrespeito desenfreado dos fãs, da mesma forma como é inconcebível a elitização que começa a dar o ar da desgraça, como se viu na Copa das Confederações. Dá pra achar meio-termo e todos serem felizes.

Busca tricolor. Ânimo, paz, vitórias é o que o São Paulo busca. Nessa ânsia, dá-lhe troca de treinadores. Desde a saída de Muricy Ramalho em 2009, por "fadiga de material" como disse um diretor, o clube não achou mais quem se sustentasse no cargo com eficiência e títulos. Paulo Autuori é o sétimo a assumir o desafio (sem contar as vezes em que Milton Cruz tapou buraco) de recolocar a equipe no trilho das grandes conquistas.

Autuori deixou boa impressão no Morumbi com a Libertadores e o Mundial de 2005. De lá pra cá, não acumula proezas significativas na carreira, tanto no Brasil como no exterior. Porém, agrada pelo tom grave do discurso. Oportunidade para provar eficiência, sobretudo porque pega um elenco de qualidade, mas com moral baixa, sem rumo. E talvez encontre alguma resistência com a torcida, que imaginava o retorno de Muricy. A propósito de "fadiga de material": ela deveria aplicar-se também a certos dirigentes que não largam o osso de jeito algum.

Galo na final. Foi emocionante a classificação do Atlético-MG para decidir a Libertadores. Pênaltis mexem com a emoção. O sonho do título inédito está mais perto. Será real.

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