Sinal dos tempos

Torcedores, treinadores e comentaristas sugeriram, e Mano Menezes chamou Borges para o insosso amistoso da próxima semana, contra a Argentina. Sua convocação é claro sinal de que vivemos uma crise de centroavantes. Não temos nenhum camisa 9 em quem podemos confiar para 2014, algo atípico para uma seleção que, nas últimas décadas, orgulhou-se de dar a responsabilidade dos gols a Careca, Romário, Ronaldo e até mesmo Adriano e Luís Fabiano.

EDUARDO MALUF, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h05

Não faço a afirmação em tom crítico ao treinador, hoje com opções modestas para o setor. Apenas exponho preocupação com nosso atual momento. Na Copa América, o time brasileiro entrou em campo quatro vezes e não saiu do 0 a 0 em dois jogos, com Venezuela e Paraguai. Há nove dias, não conseguiu furar a fraca defesa argentina. E na maioria dos testes tem passado dificuldades, como no magro 1 a 0 sobre Gana.

Borges pode ser uma solução? Não acho justo desmerecer sua convocação. Ao contrário. É, afinal, o artilheiro do Brasileiro, com média de quase um gol por partida (18 em 21), e talvez o principal personagem - acima até de Neymar - da reação do Santos na competição. Mas está longe de ser o centroavante de que precisamos para buscar o hexa na Copa de 2014.

O santista é muito bom jogador. Posiciona-se bem na área, tem ótimo aproveitamento nas finalizações e sabe cabecear. Não é, no entanto, o nome para carregar a camisa 9 e assumir a missão dos gols numa seleção cinco vezes campeã. Em outubro, completará 31 anos. No Mundial terá quase 34.

Em sua bem-sucedida carreira, nunca atuou na Europa. Despontou com 24 anos no Paraná, foi para o Japão, teve expressiva passagem pelo São Paulo, fez sua parte no Grêmio e agora, em poucos meses na Vila Belmiro, vive a melhor fase. É improvável, porém, que um atleta evolua de "muito bom" a "craque" na reta final da vida profissional.

Borges é mais uma alternativa de emergência para o presente. Não vejo espaço para grande futuro na seleção, embora o futebol frequentemente reserve surpresas. Se apresentar na equipe de Mano a eficiência mostrada no clube, o centroavante pode aos poucos ganhar força, aproveitando-se, sobretudo, da crise brasileira de goleadores.

Um dos preferidos do treinador, Alexandre Pato não tem sido capaz de fazer jus à fama. De titular absoluto na Copa América, passou a reserva. No Milan, iniciou a temporada europeia de forma discreta. Marcou um gol contra o Barcelona, no Camp Nou, pela Liga dos Campeões, mas nas outras partidas em que atuou teve participação apenas mediana. Anteontem, no empate com a Udinese, foi substituído, mais uma vez, por lesão.

Neymar e Robinho não são jogadores de área e precisam de um companheiro mais fixo no meio para que o ataque se complete. Adriano, de 29 anos, seria uma opção, depois de se recuperar de contusão. Mas ainda é possível confiar nele? Não creio. Luís Fabiano é da idade de Borges e mostra apetite para reestrear pelo São Paulo. Não consigo, contudo, vê-lo novamente brilhando com o Brasil.

A grande esperança hoje parece mesmo ser Leandro Damião. Jovem de 22 anos, artilheiro e técnico. Joga bem pelo alto e por baixo. Seria nome certo na lista de ontem, não fosse a lesão muscular sofrida na noite de quarta-feira, durante Figueirense x Internacional, em Florianópolis, pelo Brasileirão. Reflexo, aliás, da maratona de jogos e viagens. Neste ano, já disputou o Gauchão e a Libertadores, além da competição nacional. Nos períodos em que poderia descansar, tem servido à seleção. Muitas vezes em ocasiões desnecessárias, como no sonolento 0 a 0 com a Argentina, em Córdoba.

Neymar também tem sentido o desgaste. Contra o América-MG, anteontem, recebeu um providencial terceiro cartão amarelo. Ganhará, assim, o fim de semana para ficar longe da bola. Com o são-paulino Lucas, a situação não é diferente. Seu desempenho oscilante se deve muito à queda física. Amistosos, como o da próxima quarta-feira, precisam ser mais bem estudados. Eles podem render boa quantia em dinheiro, mas custar caro demais à seleção.

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