O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2008 | 00h00

Estou em Montevidéu, para três apresentações. Quatro dias de trabalho, uma série de entrevistas para jornais, rádios e tvs, divulgação importante e necessária para a minha primeira incursão nessa terra vizinha porém estrangeira. A pouca familiaridade com a língua espanhola exigiu muito esforço e atenção para a compreensão das perguntas formuladas. Respondi a todas lentamente, pronunciando as frases numa velocidade pouco natural. Cada palavra soava de um modo diferente, como se as sílabas esticadas pelo ritmo pausado fizessem vibrar o ar de um jeito inusual. E o vagar da fala emprestou as velhas palavras um significado estranho. Como se ali na pausa do fraseado coubesse o tempo que permitiria ao ouvido perscrutar de modo inconsciente e imperceptível novas possibilidades para o entendimento. Fui respondendo coisas que imediatamente me surpreendiam, alinhavando o raciocínio com outra lógica, como se a língua estrangeira tivesse impregnado meu próprio pensamento com sua sonoridade incomum.No quarto do hotel, na espera da hora de me dirigir ao recinto do show, liguei a tv para fazer passar o tempo. Um recorrente mau humor, fruto do meu nervosismo, sempre me deixa aflito nesses momentos. Parei num canal que estava exibindo o filme oficial da FIFA sobre a Copa de 2006. A primeira coisa que chamou a atenção foi perceber que as partidas registradas não tinham a locução das transmissões tradicionais. Um narrador em off contextualizava as imagens exibidas com informações concisas. A própria filmagem, embora carregasse consigo as tintas da melhor tecnologia, carecia de agilidade, parecia desconectada com a habilidade que os jogadores exibiam conduzindo a bola com os pés. Mas o silêncio entre as frases deixava espaço para a voz dos movimentos. E o futebol se mostrou balé. Uma dança sem coreografia e música, a não ser o improviso dos gestos em consonância com o diapasão atonal do vozerio caótico da algazarra do estádio. Essa supressão da locução a que estamos tão acostumados quando assistimos uma partida pela tv, me fez entender aqueles trechos de jogo editados da mesma forma que costumo ver os jogos quando estou no estádio. No campo, se você não estiver com o ouvido colado num radinho de pilha, a voz que narra o jogo é a da luz dos olhos que escrevem a partir das imagens por eles captadas. E como cada olhar é único, cada partitura contém sua partida exclusiva, que não pode ser repetida nem recontada. A experiência de assistir a um jogo de futebol no estádio é comparável ao ato de uma criação gerada na espontaneidade do acaso e do momento. Criação que ocorre simultaneamente no campo, fruto da incontrolável ação que se dá naquele espaço, e na imaginação daqueles que acompanham o espetáculo, sentados na arquibancada. Uma sinfonia singular, volátil, imprevisível.É, os ouvidos e os olhos se acostumam com o que é cotidiano e esse costume cria acomodamento. A regularidade dos encontros, a repetição das tarefas nos leva a tratar os compromissos com uma segurança que provém da idéia que solucionar desafios é ter uma caixa de ferramentas recheada. Mas quem disse que sempre temos na cartucheira as armas e a munição necessária para destrinchar todo enigma? O que seria preferível - a soberba que se camufla como aparente domínio ou a recuperação da sensação do medo que indaga a extensão de nossos limites? Futebol mudo não é futebol cego. Falta de visão é falta de tato. E o tato é o principal instrumento para nos fazer retornar a área fundamental do contato: quando não existe segurança a gente se reinventa.

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