Só deu Neymar

Caro amigo, esqueça o jogo do Santos com o pujante Kashiwa Reysol, marcado para a manhãzinha desta quarta-feira em Toyota - 8h30, no horário de Brasília, bem entendido. Muitos, ao abrirem o jornal, já saberão o resultado do duelo. Não me aventuro a dar uma de vidente e imaginar o desempenho de Neymar na estreia no Mundial de Clubes, porque não o sou e pagaria mico. Sei que, independentemente do placar, o jovem astro é o personagem com maior valorização no futebol brasileiro em 2011.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2011 | 03h03

Impressiona como em tão pouco tempo o garoto franzino, uma vez definido por Vanderlei Luxemburgo como "filé de borboleta", virou homem, em várias atitudes fora dos gramados. Mas sobretudo como cresceu como profissional. Por circunstâncias, temperamento e talento, se transformou, na passagem dos 18 para os 19 anos, na figura central da equipe campeã paulista e da América. E, o mais importante, em geral não negou fogo nem fugiu de responsabilidades.

Neymar parece absorver bem a fama - precoce, do ponto de vista cronológico, pois mal saiu da adolescência. Mas compreensível, porque essa aceleração de etapas se aplica aos fenômenos que de vez em quando aparecem no esporte. E, salvo engano, o 11 alvinegro está nessa categoria especial. O rapaz assumiu o lado popstar, com alguns exageros comuns para os que logo cedo se veem cercados de paparicações de toda espécie.

Em contrapartida, dá ao clube o retorno técnico e financeiro de que dele já se espera e cobra. Virou chavão num piscar d'olhos falar que "com Neymar em campo o Santos se agiganta". Constatação verdadeira, para alegria dos que curtem o joguinho de bola e para decepção de quem torce o nariz para a estrela ascendente e sofre de dor de cotovelo crônica.

Não foi por acaso que Barcelona e Real Madrid só faltaram sair no tapa para ter o privilégio de pescar a pérola. Ambos pegaram pesado nas ofertas e nas negociações ao longo do ano, cada um cantou vitória e, tenho certeza, nenhum desistiu, mesmo com o acordo do mês passado que pode segurá-lo na Vila até depois da Copa de 14. Os espanhóis vislumbraram em Neymar fonte de lucro gordo e aposta com retorno garantido.

O Santos também pensou dessa maneira e merece elogio. O contorcionismo monetário para convencê-lo a ficar embute atrevimento e risco, como qualquer investimento fora de padrões conservadores. Impossível, portanto, cravar que renderá dinheiro a rodo. A lógica indica que sim. O imponderável, com eventuais tropeços, faz parte do negócio. O perigo de prejuízo se aplica também aos dois tubarões europeus.

É raciocinar pequeno, além de comportamento egoísta, prever uma lesão (isola!) de Neymar e, por extensão, perda de receita para o Santos. Fosse assim, ninguém teria contratado Ronaldo após a primeira fratura que sofreu. No entanto, Inter, Real Madrid, Milan, Corinthians assediaram o Fenômeno e o mantiveram sob contrato. Correram o risco. O Santos faz algo idêntico com sua cria.

Por que a pressa de alçá-lo à condição de ídolo multinacional? Isso virá com o tempo e naturalmente. Basta continuar na toada atual que chegará a hora de dividir atenção com Messi, Cristiano Ronaldo ou o ídolo bola da vez. Vivemos tempos em que tudo deve ser feito com rapidez e com desdobramentos imediatos. Por isso, nos alarmamos com a aparente calma do próprio Neymar, de seu pai e mentor, do Santos ao lidarem com o assédio e seus desdobramentos. Fazem muito bem. Assim o mito encorpa, e por enquanto fica por aqui.

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