'Só dinheiro não ganha medalhas', diz presidente do COB

Investir é essencial, mas o que garanteos resultados é um conjunto de ações com os atletas, diz Nuzman

SÍLVIO BARSETTI , ENVIADO ESPECIAL / LONDRES, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2012 | 03h06

O Hotel Hilton, em frente ao Hyde Park, é uma das áreas mais vigiadas pela polícia londrina durante os Jogos. Estão lá os principais dirigentes do Comitê Olímpico Internacional (COI). Sábado, pouco após as 15 horas, num mezanino ao lado do lobby, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Comitê Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, disse que a projeção do número de medalhas que o Brasil deve conquistar em Londres foi feita com muito critério e não à base de especulações.

Em entrevista exclusiva ao Estado, ele eximiu o COB da responsabilidade pela formação de atletas. "Isso é atribuição das confederações nacionais." Sobre a cobrança do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, que na semana passada disse que o Brasil teria de ganhar cerca de 20 medalhas em Londres e não em torno de 15, como prevê o COB, Nuzman comentou que teve "outra leitura", embora ressalte que o ministro tem todo o direito de cobrar. "Mais do que tudo, acho que ele manifestou um desejo."

Como o senhor avaliou a cobrança do ministro Aldo Rebelo pela conquista de mais medalhas em Londres?

A obrigação do COB é avaliar o trabalho das confederações. Quem prepara atletas são as confederações, não o COB. O comitê ajuda o projeto de cada uma. Elas é que escolhem seus técnicos, seus atletas, o sistema de classificação que esses atletas vão ter. Tive uma outra leitura do que ele falou. O comitê não tem atleta. A projeção nossa, fruto de muito estudo, foi em torno de 15 medalhas; pode ser menos, pode ser mais.

Essa avaliação foi feita com base em que critérios?

Com base na análise que cada confederação fez e está fazendo, com o nível dos atletas à disposição de cada uma. Existe também a entressafra, nem sempre a renovação de qualidade é constante.

O ministro se baseava nos recursos públicos investidos ...

Vamos divulgar tudo o que recebemos no atual ciclo olímpico, possivelmente ainda em Londres, e vamos ser realistas. Serão números verdadeiros. Não acho que houve cobrança do ministro, embora ele tenha o direito de fazer isso. Mais do que tudo, acho que ele manifestou um desejo. É importante destacar que não se classifica os países no ranking de medalhas por volume de dinheiro investido. Não existe isso. Se fosse assim, não precisava de competição. Seria assim: quem injetou mais, vai ter mais (medalhas). Na prova de 250 km de ciclismo, (realizada no sábado), a maior equipe do mundo, que é a inglesa e que investe muito no ciclismo, chegou em 28º lugar.

Essa cobrança ou desejo por mais medalhas vai aumentar muito em 2016. Como o senhor vai lidar com isso?

Pode me fazer a mesma perguntar daqui dois ou três anos. O que digo já faz alguns anos é que vamos estar entre os dez mais bem premiados. Vou repetir isso em 5 de agosto de 2016, na abertura dos Jogos. Não vamos mudar, pode ter mais ou menos dinheiro. Não estamos comprando medalha, e sim fazendo um trabalho sério. Mas é claro que ninguém faz atleta da noite para o dia. E nenhum país se torna uma potência olímpica do mesmo modo. Além disso, não tenho de mostrar a ninguém no Brasil a minha capacidade do trabalho. Peguei o vôlei em 15.º no ranking mundial e o tornei uma potência, com os melhores técnicos e jogadores do mundo. Mas fui eu e a Confederação Brasileira de Vôlei (que Nuzman presidiu), e não o COB. O COB não faz isso.

Está claro que o senhor se incomoda com essa pressão por resultados …

Nossa obrigação é colocar os fatos que existem. Não podemos especular. China, Rússia, Alemanha, Japão, Estados Unidos, Itália; todos esses países têm um trabalho de décadas. Nós não temos isso no plural. Nossa reviravolta com o aporte de leis federais começou há dez anos. A partir daí, começamos a montar confederações. A China investiu, para os Jogos de Pequim, US$ 2 bilhões. A Alemanha, US$ 1,9 bilhão, praticamente a mesma coisa. Uma ganhou 100 medalhas e a outra, 47. Então, a partir disso, você vai dizer que a Alemanha não é forte? Não é esse o caminho.

Recentemente, Bernard Rajzman, chefe da missão do COB em Londres, disse para a presidente Dilma Rousseff que o Brasil evoluiu muito no esporte, mas que falta qualidade nos treinamentos. Qual sua opinião com relação a isso?

O Rio ganhou o direito de sediar os Jogos sem ter nenhum centro olímpico de treinamento. É a única cidade na história em mais de 100 anos que conquistou esse direito sem um centro sequer. Sem os CTs, as confederações não têm onde treinar os atletas. Então, não é só o dinheiro que vamos dar às confederações que vai resolver tudo. Dinheiro é fundamental, mas temos de dar condições de trabalho. Quando ganhamos em 2002 o direito de ser sede do Panamericano de 2007 havia 50 anos que não se construía uma instalação esportiva no Brasil. Não tem mágica que dê jeito. O que vale é um conjunto de ações.

Para se tornar uma potência olímpica, o Brasil não dependeria de um trabalho voltado para escolas, universidades, clubes?

Que o Brasil vai ser uma potência olímpica, será. Em quanto tempo, não sei. Depende de uma série de fatores. Tem um conjunto de envolvimentos numa série de áreas. Clubes fortes, escolas e universidades atuando em parceria, integração com os governos. Ninguém faz nada sozinho. Isso tudo é necessário, sim.

Depois de dois anos de grande polêmica, a Lei Geral da Copa foi aprovada a muito custo. Como vai ser a negociação da Lei Geral da Olimpíada?

Já está em andamento, bem encaminhada; vai ser aprovada sem trauma. São entidades diferentes (COI e Fifa), com interesses diferentes.

Como foi a negociação para o COI lhe conceder o título de membro honorário?

Não houve negociação nenhuma. Não tive de negociar nada. Foi questão de reconhecimento. Era natural que as coisas caminhassem assim. Eu nunca lutei para que mudassem a idade mínima (de 70 para 80 anos, para ser membro do COI). Nenhuma carta minha foi feita, nada disso. A maior vitória que eu tive na minha vida pública foi trazer os Jogos para o Rio. Não vou ter outra. A não ser que eu veja o Rio ganhar de novo o direito de ser sede de outra Olimpíada, o que não acho provável por questões lógicas.

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, disse que vai conversar com o senhor para que ceda o termo "Olimpíada" para campanhas do governo federal. Há manifestações do setor jurídico do COB contrárias à utilização da expressão.

A palavra "olimpíada" é propriedade do COI. Mas vou tentar interceder. Quero ajudar a criar facilidades pelo menos nas áreas da educação e de ciência e tecnologia. Não há nas campanhas do governo interesse comercial. Não vejo problema.

O Brasil, como sede, vai ter direito a disputar todas as modalidades em 2016?

Em princípio, sim. Estamos com dificuldades em uma ou duas. Mas, desculpe, não posso falar nada mais agora sobre isso, senão atrapalharia as negociações com as federações internacionais.

Como está a luta para manter a classe Star (da vela) nos Jogos de 2016?

O COI vai anunciar em dezembro de 2013 o cardápio completo dos Jogos do Rio. Vamos ter 28 esportes, com a inclusão do golfe e rúgbi, e pode haver alteração em provas ou modalidades que seriam sub-itens dessa lista de 28. Tem um limite de atletas, 10.500. Espero que a Federação Internacional de Vela tenha a sensibilidade de entender que a classe Star é popular no Brasil e que atrai torcedores e a atenção da mídia.

A Rio 2016 já negocia com algum diretor artístico para a cerimônia de abertura no Maracanã?

Estamos trabalhando nisso, mas não há nada definido. Não posso dizer mais, para proteger pessoas envolvidas e evitar mal-estar.

Como serão os 8 minutos a que tem direito a delegação brasileira na festa de encerramento dos Jogos de Londres?

Temos 250 voluntários ensaiando com aplicação e entusiasmo; vamos aguardar. O que posso adiantar é que vamos receber a bandeira olímpica, que o prefeito de Londres, Boris Johnson, entregará ao do Rio, Eduardo Paes, e depois começa o nosso evento; rápido, mas marcante.

ENTREVISTA: Carlos Nuzman, presidente do COB

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