Só me resta desejar boa sorte ao Rivaldo

Coluna em jornal não é brincadeira, soube disso nesta semana. Alguns amigos íntimos e eu nos reunimos frequentemente para uma cerveja e nessas ocasiões não é raro que minhas pobres colunas virem assunto da mesa. Criticam como só os amigos têm direito de criticar. Pode ser um pensamento que não aceitam, uma data que confundi, uma concordância verbal discutível, um final de frase, o diabo. A amizade lhes dá o direito de esculhambar. Mas nesta semana foi demais.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Ao chegar para a cervejinha, encontrei a habitual mesa às gargalhadas. E, na mão de um dos críticos mais ferozes, uma coluna, acho que de duas semanas atrás. Riam de rolar no chão, de chamar a atenção das outras mesas. Nem terminei de puxar a cadeira e já era interpelado: "Depois de uma mancada dessas você deveria ter a decência de pedir demissão" era o mínimo que me esperava.

A coluna tratava da volta de Rivaldo ao Brasil e confesso que exagerei um pouco. Para contrastar as atitudes do grande craque com outros que me dispenso nomear, elevei Rivaldo às alturas e louvei sua decisão de presidir e jogar pelo Mogi Mirim. As piadas continuavam: "Você já soube que o seu herói do sertão de Pernambuco, o craque da Pedra do Reino do Ariano Suassuna, não ficou nem duas semanas no Mogi Mirim e foi ganhar uma graninha no São Paulo? Você acha que o Rivaldo vem pra jogar ou para o lugar do Juvenal?".

Aguentei firme, enquanto as opiniões mais devastadoras sobre o meu texto desfilavam pela mesa, surgindo mesmo, entre outras coisas, uma série de ideias destinadas aos meu editores, contendo sugestões que certamente afetariam minha carreira no jornalismo e que iam de séria advertência à demissão sumária para resguardar a credibilidade do jornal.

O que eu posso fazer? Só me resta desejar ao Rivaldo boa sorte no São Paulo. Aliás, não poderia haver melhor clube para ele neste momento da sua biografia. No capítulo de craques em fim de carreira, o São Paulo é especialista. Lembro de uma infinidade de episódios em que o Tricolor apostou na história e desconheceu solenemente o tempo. É bonita essa atitude do clube de acreditar que um craque é sempre contemporâneo de si mesmo e que o tempo pode se curvar diante do talento.

Claudio Cristóvão Pinho, depois de uma carreira gloriosa no Corinthians, já tinha até assumido o cargo de treinador no clube, quando repentinamente voltou a jogar, contratado pelo SãoPaulo.

O grande Jair Rosa Pinto, depois de comandar o Palmeiras e o Santos de Pelé por muito tempo, foi contratado no vigor de seus 40 anos, Didi, o maestro da seleção campeã de 58 e 62, chegou quando a noite já descia perigosamente sobre sua carreira, ficou uns dois ou três meses, tempo em que fez um único gol, infelizmente contra.

Mais recentemente Falcão andou pelo São Paulo nos últimos momentos de sua brilhante trajetória, acontecendo o mesmo com seu companheiro de seleção, o não menos talentoso Toninho Cerezo.

Sem gol contra o Mogi. Todos grandes craques, patrimônio do melhor futebol brasileiro. Nem todos deram certo no São Paulo, era muito tarde, é verdade. Mas confesso minha simpatia por esses sonhos loucos de reviver o passado, que de tempos em tempos acomete o clube. Tomara que Rivaldo acerte. Vou continuar torcendo e admirando esse grande jogador. Só peço a ele que não faça um gol exatamente contra o Mogi Mirim, para não acabar com o pouco que resta da reputação desta coluna.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.