Só o talento contenta

Toda vez que o Brasileirão embola, como agora de novo, o coro dos contentes exalta a qualidade do futebol nacional, único do mundo a ter dez candidatos ao título, enquanto nas ligas europeias são sempre os mesmos dois ou três suspeitos de sempre, etc. Do Palmeiras, décimo colocado, ao Cruzeiro, líder, existem apenas dez pontos de diferença, com 24 ainda por ser disputados até o final do campeonato. Mas vamos ao fato: a aproximação no alto da tabela foi causada mais pelos maus resultados dos líderes do que pelo nível ascendente dos outros. Está difícil de ver um time com "pinta de campeão". Daí a imprevisibilidade, que nem sempre tem significado emoção: muitos são os empates, poucos os gols.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

Quando acontece um jogo como o que São Paulo e Santos fizeram, 4 a 3, com alguns lances de técnica e ousadia, de jogadores como Dagoberto e Neymar, todos comemoram justamente por ser exceção, não a praxe. Outro indício de que as coisas vão tecnicamente mal é o domínio do assunto arbitragem nas mesas redondas das TVs e dos botequins na noite da rodada. O futebol brasileiro está violento, e os juízes fazem parte do problema, errando muito e exagerando nos cartões. Teorias conspiratórias acabam surgindo aos montes, mas são sempre derrubadas na rodada seguinte, quando o time acusado da tramoia é tungado em praça pública. Onde faltam craques, a cultura do "parar a jogada" prevalece.

Foi o que se viu no jogo entre Guarani e Corinthians. Apesar das muitas oportunidades de cada lado, a qualidade técnica deixou a dever e, quando apareceu, foi punida pelos árbitros, como nos dois gols anulados de Ronaldo, um jogador que segue mostrando que mesmo sem ritmo e leveza é capaz de fazer a diferença com a inteligência e a habilidade bem superiores. O Cruzeiro, que se salva tecnicamente com Montillo, talvez o melhor jogador do campeonato (apesar de não estar desde o início), também teve um gol mal anulado, o que não significa que tenha jogado melhor que o Grêmio. E o Fluminense também foi mal, empatando com o Botafogo, e continua sentindo seus desfalques e desgastes.

Por isso a tabela embolou de novo, e por isso um time como o Internacional pode perder para o Flamengo por 3 a 0 mesmo que tenha elenco e temporada melhores; não foi o Flamengo que começou a jogar muito. O mesmo vale para o São Paulo, se bem que neste caso o elenco não vinha conseguindo jogar à própria altura. Mas há esperança de que a classificação apertada e a volta de bons jogadores que estavam contundidos, além do intervalo de uma semana entre cada uma, produzam a partir de agora um número maior de boas partidas. O torcedor quer ver talento, não apenas emoção. Que nas próximas oito rodadas a bola desembole.

Madrid 2010. O Real Madrid viu a Copa de 2010, o Milan não. A inegável diferença mostrada em campo, ontem, no Santiago Bernabéu, pela Liga dos Campeões, pode ser explicada por isso. O clube espanhol se renovou com Özil, o alemão de origem turca que brilhou na África do Sul, e com Di Maria, argentino que também teve boa atuação; ainda contratou o experiente Ricardo Carvalho, zagueiro português que foi campeão com o técnico Mourinho no Chelsea. Mourinho deu ao time o que não tinha fazia tempo: consistência na defesa, começando a marcação lá na saída de bola adversária; Xabi Alonso é a medula desse sistema. Com tudo isso, o futebol de Cristiano Ronaldo, Marcelo e os demais também cresceu.

O Milan não soube se renovar. Trouxe Ibrahimovic, depois de passagem apagadíssima pelo Barcelona, e Robinho, que ontem de novo só entrou no segundo tempo. O quarteto do meio, Gattuso, Pirlo, Seedorf e Ronaldinho, não tinha como lidar com a força e jovialidade do concorrente. Pato, melhor do time na temporada, jogou aberto demais e perdeu o duelo para Marcelo, único que Mano Menezes deve ter saído satisfeito de ter visto. Ronaldinho deu dois ou três bons passes e só. Robinho, que teve três anos medíocres na Espanha, tomou vaia ensurdecedora do estádio. O resultado, 2 a 0, não refletiu a partida; os desperdícios do ataque madridista foram tantos que um 4 a 0 não teria surpreendido nem um pouco.

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