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Ugo Giorgetti
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Só se fala dele

Só se fala do Corinthians. Abro o jornal e vejo o Corinthians. Ligo a TV, a mesma coisa. Outro dia havia uns quatro canais transmitindo Corinthians e Luverdense. Como se explica isso? Pelo Campeonato Mundial e a Libertadores? Acho pouco provável. Existe alguma coisa nessa ascensão do Corinthians que merece estudo. Até poucos anos, uns 20, mais ou menos, era um time confinado a São Paulo. Nem sequer tinha sido alguma vez campeão brasileiro. Quando o Flamengo, seu eterno rival no número de torcedores, já era campeão mundial, o Corinthians nem pensava em Libertadores. Embora respeitado, era mais uma equipe de fenômenos como Rivellino ou Sócrates do que um time de fato imponente.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h08

Sua ascensão rumo a outras fronteiras começou nos primeiros anos 90 e não parou mais. Mas é inegável que o grande salto se deu nos últimos dez anos, aproximadamente, quando começou a ganhar mais e mais corpo. Não se pode deixar de assinalar que essa época coincide com a chegada ao poder de um corintiano fanático. Ao contrário de outros presidentes e governadores em quem não se sentia verdadeiramente a paixão clubística, em Lula se reconhece de fato o corintiano.

Não estou nem de longe dizendo que essa coincidência levou a favoritismo nas arbitragens ou outras proteções. O que digo é que simbolicamente ela teve enorme efeito. Se aquele corintiano tinha conseguido, por que não o time? Por que não a coletividade? O atrevimento e a audácia pessoal de Lula, que, para o bem e para o mal, age no Palácio de Buckingham como se estivesse na sede da Gaviões, no Bom Retiro, não creio que tenha passado despercebido dos torcedores. Lula caminha pelo mundo como um vencedor, sem nenhum traço visível de inferioridade. A meu ver, essas atitudes agiram fortemente sobre a mente de parte importante da torcida. Antigamente, era comum alguém se apresentar como "corintiano e sofredor". Ouvi isso milhares de vezes, quase sempre por brincadeira, mas que ocultava um fundo de verdade. Quem torcia para o Corinthians era realmente sofredor, ou uma porção da classe média que se identificava com os sofredores, quase por razões políticas. Como grande parte das mulheres na década de 70, que se viam ao lado do povão. Não mais.

Corintianos não sofrem mais. E algo me diz que o povão não está mais lá onde sempre esteve. Houve a partir de um determinado momento um súbito ganho de autoconfiança e, sobretudo, audácia. Novas pessoas tomaram conta do clube, e todas lembram, em menor ou maior grau, o ex-presidente.

Jogadas audaciosas de marketing foram feitas, alianças ambiciosas, o estádio, que era quase uma impossibilidade na história do clube. Tenho uma certa dificuldade de identificar essa nova classe média que dizem estar aparecendo. Consigo apenas entrever certas mudanças na vida do brasileiro, que muitas vezes me parecem duvidosas. Enfim, é difícil distinguir o que realmente está acontecendo do que se apregoa que poderia estar acontecendo. É nisso que entra o Corinthians.

Para mim, o que acontece nesse clube nos últimos anos é uma prova concreta, definitiva, de que algo está se movendo na sociedade brasileira, e profundamente. Certamente uma mudança de mentalidade. Certamente um deslocamento de forças nas relações sociais. Tem gente muito confiante entre nós. Tem gente que se deslocou de seu lugar tradicional e caminha para outros lugares, levando consigo seus valores. Que lugares são esses e que valores são esses? A verificar no futuro.

Por ora, de minha parte, para entender pelo menos um pouco do que se passa, lanço meus olhos para o Corinthians. Confesso que é muito duro olhar para um velho rival com olhos de cientista político, que, aliás, estou a quilômetros de ser. Preferia muito mais me ocupar do velho Corinthians. Mas receio que ele, como a sociedade da qual faz parte e é poderoso símbolo, não seja mais o mesmo.

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