Só vale o ouro

Rogério Ceni é provavelmente um dos jogadores mais obcecados por títulos. Certa vez, porém, durante a disputa de uma Taça Libertadores, há alguns anos, criticou a cobrança exagerada por conquistas nas grandes equipes, como se o primeiro lugar fosse dever de casa ou item obrigatório no contrato de trabalho de técnicos e atletas. "As competições têm 20, 30 participantes, mas só um vai ganhar", declarou. "Não podemos dizer que todos os outros são ruins."

Eduardo Maluf,

20 de julho de 2012 | 03h09

A observação do goleiro do São Paulo pode parecer óbvia, mas o fato é que, no Brasil, nós (jornalistas, torcedores e dirigentes) não aceitamos o segundo lugar. O Coritiba, por exemplo, "fracassou" ao perder do Palmeiras na final da Copa do Brasil. E o Boca Juniors está "decadente" por ter sido derrotado pelo Corinthians na decisão da Libertadores.

Prefiro pensar como Rogério a achincalhar os vice-campeões. Abro uma exceção para falar sobre a seleção de futebol na Olimpíada de Londres, que hoje disputa o último amistoso antes do pontapé inicial. Ao analisar grupos, competidores, escalações e assistir a trechos da preparação de alguns adversários, tive a certeza de que só há um resultado admissível para o Brasil na Inglaterra: o inédito ouro.

Desde a realização do sorteio das chaves do torneio, todos na imprensa têm comentado a fragilidade dos oponentes de nosso time na etapa de classificação: Egito, Bielorrússia e Nova Zelândia. Para mim, o escancarado favoritismo brasileiro não perde força depois da primeira fase. No mata-mata, os obstáculos vão crescer, claro, mas na teoria não podem causar medo ou respeito excessivo.

Merecem destaque apenas outras três seleções na Olimpíada: Espanha, Uruguai e Grã-Bretanha. Vale lembrar que rivais tradicionais, como Argentina e Alemanha, estão fora.

Os sul-americanos contam com os eficientes Suárez e Cavani no ataque, mas não vão além disso. Os espanhóis não chamaram seus jogadores mais badalados e dão pouca importância à disputa. E os britânicos, que enfrentarão o Brasil hoje, têm como aspecto mais favorável o apoio do torcedor. O principal nome do elenco é o veterano meio-campista galês Ryan Giggs, de 38 anos, em fim de carreira.

Mano Menezes vai na contramão de seus colegas. Pressionado pela CBF e pela torcida, convocou uma equipe estelar. Comecemos pelo setor ofensivo: Neymar, o melhor jogador em atividade no País, Damião, forte candidato a titular no Mundial de 2014, e Hulk, conceituado na Europa. O time ainda terá o ascendente Oscar na armação, além de Ganso, Lucas e Pato na reserva. Rafael, titular do Santos e alvo do Milan, usará a camisa 1. Thiago Silva, um dos melhores zagueiros do mundo, assumirá a condição de líder em campo.

Traduzindo, o Brasil nos Jogos, no papel, é uma espécie de Dream Team americano do basquete. Qualquer resultado que não o primeiro lugar (mesmo uma medalha de prata) significará um retumbante fracasso.

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