Sob nova direção, Franca tenta retomar antigas glórias

Em setembro, presidente do clube renunciou. Seu sucessor trocou técnico, mudou gestão e procura remodelar um mito

ALESSANDRO LUCCHETTI, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2013 | 02h07

SÃO PAULO - Em 1980, aos 40 anos, Hélio Rubens ainda jogava em Franca. Seu filho, Helinho, aos cinco, era o mascote do time. Com pouco mais de um metro de altura, entretinha a torcida no intervalo dando um show de arremessos. Helinho cresceu e já se tornou um veterano. O reinado da família em Franca se estendeu por muito tempo, com algumas interrupções, mas desde junho do ano passado o comando técnico pertence a Aluísio Ferreira, o Lula, que fez história no Ribeirão Preto/COC e teve passagem pela seleção brasileira.

Antes odiado pela torcida francana, assim como Nezinho, jogador-símbolo de Ribeirão, Lula foi contratado no ano passado pelo presidente José Guilherme Calil Maia, que era vice e assumiu após Marcos Calixto renunciar, em setembro, numa crise.

Calil criou uma distinção clara: uma coisa é preservar tradições, outra é fossilizar antigas práticas e ignorar o passar do tempo. Assim, aos 72 anos, Hélio Rubens seguiu o rumo de Uberlândia, que já havia comandado.

"A ideia de substituir o treinador surgiu devido ao desgaste. Hélio e Helinho fizeram um grande trabalho, têm currículos invejáveis. Buscamos uma renovação com mudança de conceito, com aproveitamento de novos talentos e revolução administrativa, pois nossa gestão sempre foi muito amadora", diz Calil.

Franca contratou uma empresa de marketing e na semana retrasada inaugurou sua loja de produtos oficiais. Existe na bandeira do município o desenho de um sapato, referência ao peso da indústria calçadista, e uma bola de basquete. Mas não havia na cidade, a chamada capital do basquete brasileiro, um único monumento ou local que simbolizasse essa importância, além do ginásio Pedrocão, um templo para os fanáticos francanos. O projeto inclui até o lançamento de camisas retrô, referentes a importantes momentos do time.

O torcedor francano, que havia se afastado do ginásio, voltou. Levantamento feito pelo site especializado www.basketeria.com.br acusou um crescimento de 90% do público.

Lula foi recebido sem hostilidade. "Muita gente me disse que foi legal eu ter vindo, mas admitiram que já me xingaram muito. Não era nada pessoal, mas uma reação àquilo que eu simbolizava, o basquete do rival Ribeirão."

Habilidoso politicamente, Lula propôs uma reformulação que não afrontasse os parâmetros do estilo francano. "Franca sempre jogou com defesa muito forte, contra-ataque rápido e muita garra, sem estrelismo."

Lula destaca essas características com propriedade. Ele fez alguns cursos com Pedro Murilla Fuentes, o Pedrocão. O homem que dá nome ao ginásio de Franca foi o grande arquiteto do conceito francano. Professor de educação física e treinador autodidata, conduziu a equipe a várias conquistas e formou Hélio Rubens, que o sucedeu e deu continuidade a esse sucesso.

As contratações propostas pelo treinador foram aprovadas: o armador argentino Figueroa, que veio do Pinheiros; Jonathan, ex-Limeira, e Teichmann, ala-pivô que deixou o Flamengo. O resto ficou por conta da arquibancada, que Lula reconhece ser a alma do time. "Sempre me impressionei com a força emocional de Franca. Mesmo enfrentando as piores dificuldades, sempre acredita até o final."

A mítica fibra francana se manifesta mesmo fora de casa. Num dos melhores jogos do NBB, no dia 16, Franca deu fim à invencibilidade do Flamengo, que durou 20 jogos. A quatro minutos do final, no Ginásio do Tijuca, Franca perdia por 12 pontos. Com defesa ajustada, marcou 20 a 3 no final e venceu por 91 a 86.

Num cenário em que as forças dominantes são hoje Brasília e Flamengo, Franca ficará satisfeita se ficar entre os quatro melhores do NBB - hoje está em quarto.

Ciente das limitações do time, Lula evita comparações. "O Hélio escreveu um livro em Franca. Ficarei feliz se acrescentar uma linha." Os "sapateiros", como são chamados os torcedores de Franca, sonham ler na linha a palavra "campeão". O último Paulista foi alcançado em 2007, e o mais recente brasileiro é de 99.

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