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Sobre uma derrota

O Santos perdeu por 8 x 0 do Barcelona. E empatou bravamente com o Corinthians, campeão mundial, logo a seguir. O que se pode concluir desses resultados? O que concluir, em primeiro lugar do time do Corinthians? Empatando às duras penas com o Santos seria o Corinthians, num possível confronto com o Barcelona, surrado por, digamos, 7 x 1?

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 10h44

Ouvi comentários pelas ruas afirmando que o Timão teve sorte de pegar o pobre Chelsea pela frente e não os temíveis espanhóis. Não acredito em nada disso. Futebol, como dizia um antigo jogador, é antes de tudo, moral. O moral elevado faz milagres num time de futebol. E esta é a diferença entre Corinthians e Santos no momento. O Santos foi para o amistoso em Barcelona com o moral mais baixa de sua gloriosa e centenária história. Primeiro de tudo foi até lá comemorar uma perda, A perda de seu melhor e mais talentoso jogador.

Sim, o Santos foi convidado para celebrar o fato de que se tornou inferior tecnicamente. Imagine-se um jogador do Santos, que por messes foi bombardeado por comentários de toda, ou quase toda, a imprensa insistindo no fato de que Neymar deveria deixar o Santos. O que sente um jogador quando, a um companheiro, se aconselha que deixe sua companhia e procure outros ares mais elevados, onde pode "aprender" a melhor jogar futebol? Com que moral jogam atletas que se sentem inferiores, apenas coadjuvantes de um colega que, por sua vez, precisa ir-se para se encontrar com o maravilhoso futebol que lhe prometem?

Acrescente-se a isso o Campo Nou, transformado em mito. Não mais o mísero Maracanã, que, aliás, nem existe mais. Não mais a própria Vila Belmiro, talvez muito mais carregada de magia e história do que o Camp Nou, cantado em todo o seu esplendor por toda, ou quase toda, a imprensa brasileira, embasbacada e aturdida por esse estranho nome catalão.

O jogador do Santos deve ter entrado nesse estádio com as pernas bambas, como um iniciante gladiador, recém-chegado de uma província distante, que entrasse pela primeira vez no Coliseu para um combate. É desse jogador do Santos, sutilmente humilhado, preparado cuidadosamente para entrar no Camp Nou como um mero auxiliar, um mísero sparring do grande time do Barcelona, que se esperava um resultado honroso.

O resultado não foi honroso, mas me atrevo a dizer que foi meticulosamente construído ao longo de meses, até anos de submissão. O que se falou sobre Neymar deixar o Santos nos últimos tempos foi praticamente uma unanimidade. Agora ele está lá, no grande país de primeiro mundo, que lhe descobriu até uma anemia, coisa que aqui no nosso pobre rincão foi impossível detectar, dado, talvez, nosso atraso. Não parecia nada anêmico quando o Brasil goleou a decantada Espanha faz pouco. O que mais me chocou, porém, foram os comentários indignados de gente completamente inadequada para fazê-los.

Uma das declarações mais indignadas e furibundas contra o prejuízo que o Santos causou ao nosso futebol veio exatamente de um dos mais conhecidos empresários de jogadores, um dos mais notórios mercadores de atletas. Certamente estava preocupado porque o resultado podia influir nas suas finanças e no valor de jogadores brasileiros que negocia. No empate contra o Corinthians, esse Santos desonrado mostrou que perdeu do Barcelona sobretudo por medo, por terror que lhe incutiram e que desenvolveu desde que, também por medo e terror, perdeu de 4 x 0 naquela final do Mundial. O Santos tem de lutar contra esses fantasmas criados que assombram a Vila.

Ouvi boatos de que um outro jogo, marcado aqui para o Brasil, teria sido cancelado a pedido do Santos. Espero que, em nome de todas as suas conquistas, isso não seja verdade. O Santos tem a obrigação moral de fazer o Barcelona experimentar a Vila de Pelé, Pagão, Pepe, Pita, Chulapa, Robinho e Neymar.

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