Soccer City testa a paciência da Fifa

Entidade já não se arrisca a fazer previsões a respeito de quando estará pronto o principal estádio do Mundial

Almir Leite, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

O sol estava começando a se pôr na calorenta tarde de quinta-feira em Johannesburgo quando Vernon Craill resolveu fumar mais um cigarro. Sua expressão demonstrava cansaço após nove horas de trabalho - e ainda haveria mais uma pela frente-, mas, ao mesmo tempo, alegria por estar participando de algo histórico. O eletricista Vernon é um dos 3 mil operários que correm para concluir o Soccer City, o mais importante estádio da Copa do Mundo e segundo palco da seleção brasileira na competição, dia 20 de junho, contra a Costa do Marfim.

A rigor, corrida já perdida, pois os prazos estabelecidos pela Fifa não foram cumpridos. Nem os passados nem o atual. A última promessa do Comitê Organizador foi entregar tudo amanhã, a 87 dias do início do Mundial, justamente no Soccer City, onde África do Sul e México jogarão no dia 11 de junho.

Internamente, o gigante com capacidade para 94.700 espectadores está praticamente concluído. Faltam detalhes como instalar tomadas em áreas como a da imprensa e nos setores vips. O problema está na parte de fora, um imenso canteiro de obras. Falta concluir tudo. A rigor, só o asfalto está terminado. No entanto, ainda não há sinalização, as vias de acesso não têm guias, há montanhas de terra onde serão as calçadas, buracos para a instalação de rede elétrica e hidráulica onde já deveriam existir canteiros, os pontos de ônibus são só esboço e o estacionamento por enquanto serve para abrigar caminhões e máquinas em sua terra barrenta...

Apesar de haver muito trabalho pela frente, Vernon não vê motivos para tanto alarde. "Vai ficar tudo pronto. E bem feito", garante ao Estado, após uma baforada. Quando? "Aí não dá para dizer."

Falar de data é algo que ninguém mais se arrisca quando se trata do Soccer City. Nem o chefe do Comitê Organizador, Danny Jordaan, que prefere o otimismo ao realismo. "Nós (os sul-africanos) sempre soubemos que nossos estádios ficariam prontos. Agora, sabemos que estarão entre os melhores do mundo", disse, recentemente.

A Fifa já pretendia ter o Soccer City em suas mãos, afinal vai receber oito jogos, entre eles os principais: o de abertura e a final, em 11 de julho. Mas, há três semanas, a entidade jogou a toalha. Vai trabalhar como puder e torcer para que o evento-teste que tanto queria fazer ocorra antes do amistoso entre os sul-africanos e a Dinamarca, agendado para 5 de junho - o torneio entre operários que trabalharam na reforma do estádio (nas fases anteriores e na atual), marcado para o próximo dia 24, logicamente não servirá como parâmetro. Se for realizado.

Vernon, cujo salário é de 2.450 rands (equivalente a R$ 584,70) por quinzena, por ser "especializado", diz que vale a pena trabalhar 10 horas por dia de segunda a sábado. "É um grande momento para a África do Sul", justifica o eletricista de 23 anos. Mas o operário braçal Wilconi Khaya não anda tão feliz. "Sinto muita dor nas costas. É um trabalho duro e ainda temos de correr"", reclamou, após oito horas de trabalho - há quem fique na ativa por até 12 horas.

Com salário de 1.245 rands quinzenais (R$ 297,10), Wilconi, um negro baixinho e magro, tinha tudo para também sentir dor nas pernas na noite de quinta. Sem dinheiro para o ônibus, ia a pé para casa, em Soweto. "São mais de 10 quilômetros", sussurrou, antes de retomar seu andar desanimado.

Talvez Wilconi também ficasse revoltado se soubesse que o orçamento do Soccer City estourou em 45% - de 2,2 bilhões de rands (R$ 525 milhões) para 3,2 bilhões de rands (R$ 763,7 milhões). A justificativa, segundo o secretário de finanças de Johannesburgo, Parks Tau: o absurdo crescimento do preço dos materiais, importados, usados nas fundações e na estrutura externa do estádio.

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