Socos da paz

Academia em Jerusalém faz o que não se consegue há séculos: reunir árabes, [br]palestinos e judeus em total harmonia

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

O Maccabi Jerusalem Boxing Club consegue todos os dias o que Chefes de Estado e líderes religiosos buscam a séculos: a paz entre judeus, palestinos e árabes. Em um bairro judeu na Jerusalém ocidental, Gershon Luxemburg transformou um abrigo antibomba em um ginásio abafado, repleto de fotos de grandes pugilistas do passado como do norte-americano Muhammad Ali e do argentino Carlos Monzón, além de figuras atuais como o filipino Manny Pacquiao.

Apesar do contato físico intenso, a troca de socos violenta e os contantes sangramentos de nariz, a luta se encerra sempre ao toque do sino, com um aperto de mão e um abraço. "Dentro da academia somos todos irmãos. Deixamos a política, religião e toda a confusão para o lado de fora", afirmou o palestino Ismail Jafrei, de 37 anos, motorista de caminhão na Jerusalém Oriental, parte da cidade que os palestinos reivindicam para a sua futura capital.

Yehuda Luxemburg, sobrinho de Gershon, é parceiro de treino de Jafrei. "Não importa a religião das pessoas. Eu sou um israelense, meu amigo é palestino e nos ajudamos ao máximo. Acho que todos os dias mostramos que é possível viver em paz no mundo", disse Yehuda, de 23 anos, após fazer uma sessão de luvas com Mohammed Handi, que trabalha como auxiliar de Gershon.

Há 30 anos no boxe, Gershon diz que nunca houve um desentendimento na academia. "É muito fácil você ver o ódio nos olhos dos lutadores, mas aqui isso não acontece. Todos se respeitam ao extremo."

Segundo Gershon, a academia fica em um dos lugares mais seguros da cidade e, por isso, é muito disputada pelas crianças. "Desde pequenos, os meninos aprendem a conviver com outros garotos de religiões diferentes. Eles acabam se tornando exemplos para seus pais e avós", afirmou.

Pela falta de espaço, as escadas, corredores e salas são usadas para os atletas fazerem suas corridas. Apesar da aglomeração, principalmente no horário da noite, nenhum incidente é registrado, segundo Gershon.

A comunicação nos treinos lembra uma Torre de Babel. A todo instante é possível ouvir instruções em hebraico, russo, inglês, árabe... Os gestos ajudam a explicar melhor o que precisa ser feito em cima do ringue.

A família Luxemburg é composta por campeões de boxe no Usbequistão, de onde imigraram para Israel. Muitos lutadores israelenses têm obtido resultados satisfatórios pelo mundo afora. O rabino Yuri Foreman chegou a conquistar o título mundial dos médios-ligeiros, versão Associação Mundial de Boxe. O pesado Roman Greenberg chegou a acumular 27 vitórias consecutivas.

Gershon Luxemburg sonha com um torneio com todas as religiões presentes, apadrinhado por Muhammad Ali. "Eu não me importo se meus alunos não se transformarem em campeões no boxe, desde que se tornem campeões na vida."

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