Sócrates, o 'exquisito'

Na madrugada do último domingo, nosso País e o mundo do futebol perderam o talento, a sagacidade e a coragem de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Como a minha coluna é publicada aos sábados, provavelmente serei o último cronista a escrever algo sobre o grande craque. Isso, no entanto, não será motivo para eu deixar de prestar homenagem a um dos meus grandes ídolos na história do esporte e - por que não? - na história do Brasil.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h01

Como quase todos os que escreveram sobre o Magrão na última semana, eu poderia tentar explicá-lo pelo conjunto da obra, por suas conquistas dentro e fora do gramado. Para isso, bastaria fotografá-lo de longe, como se ele fosse uma cordilheira ou um gigantesco palácio em forma de gente - como, de fato, foi - para ter um bom registro de sua grandiosidade. Entretanto, como as verdadeiras maravilhas são também extraordinárias quando observadas de perto, em vez da foto distante e do conjunto da obra eu optei por aproximar a minha lente e, com ela, destacar apenas uma de suas façanhas. Uma façanha que talvez seja a menor de todas, mas que é capaz de resumir o Doutor com força e verdade.

Tentarei explicar Sócrates com uma única jogada. Trata-se do lance mais belo e minimalista que eu já vi um jogador produzir. Um lançamento chega para o Doutor pouco depois da marca do pênalti, numa parábola acentuada, muito alta. Ele domina a bola no peito e, em seguida, ajeita-a como se estivesse passeando no parque. A pelota gruda em seu pé, que a deposita morta, completamente morta, no gramado. O goleiro está a meio metro dele. É só esticar o pé ou atirar-se ao chão para encerrar o lance. É o que ele tenta. Então, numa fração de segundos, o esguio artista dá um corte de letra, curtíssimo, não mais do que alguns centímetros para o seu lado esquerdo, o suficiente para o guarda metas desabar como se alguém tivesse repentinamente arrancado suas vértebras. Aí, com o pé esquerdo, rola a bola com força apenas suficiente para que ela cruze, preguiçosa, a linha do gol. Depois de fazer uma jogada de gênio renascentista, Sócrates está quase que envergonhado. Olha para o goleiro como se implorasse por desculpas. E comemora com recato. Ah, o recato, essa virtude que hoje só o grande Messi ainda cultiva.

Hispânicos e norte-americanos têm uma palavra que define bem o nosso bom Doutor: exquisito, exquisite. Sofisticado, no português, não é a mesma coisa. Refinado tampouco. Sócrates era esquisito. No sentido do idioma espanhol ou inglês, não no do português - muito embora ele também fosse esquisito na acepção que damos à palavra por aqui.

O dicionário Inglês-Português define o verbete exquisite como alguma coisa ou alguém com a marca da precisão artesanal, da beleza, da engenhosidade, da delicadeza, da execução elaborada, da distinção, da originalidade, da profunda sensibilidade ou da compreensão ampliada. O jogo de Sócrates, bem como suas ideias, trazia estas marcas. E aquele gol, aquele pequeno gol - tão pequeno que nem lembro qual era o time adversário, de uniforme azul -, refletia limpidamente a personalidade do meu ídolo. Por isso, escolhi o momento singelo para fazer uma singela homenagem. Porque o nosso bom Doutor jogava, sem trocadilho, o fino.

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