''Somos todos Africanos''

Discurso de Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz, é momento de emoção no show de abertura da Copa, evocando a origem da humanidade. Na música, diversidade e alegria com Shakira e Black Eyed Peas

Daniel Akstein Batista, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2010 | 00h00

A colombiana Shakira foi o ponto máximo da alegria no show de abertura da Copa. Mas a emoção quem proporcionou foi Desmond Tutu, personagem histórico na luta contra o apartheid. O bispo anglicano, de 78 anos, prêmio Nobel da Paz em 1984, arrancou aplausos e lágrimas, na festa de ontem no Estádio Orlando, no Soweto, ao dar as boas-vindas a todos os que vieram à África do Sul. "A África é nossa origem", recordou. "Sejam bem-vindos em casa. Somos todos africanos."

Tutu entrou no palco dançando, com cachecol dos Bafana Bafana, camisa e gorro da seleção anfitriã. Cumprimentou o público em diversas línguas, disse que vivia um sonho lindo - "Por favor, me acordem!" - e fez um tributo a Nelson Mandela. "Ele está em Johannesburgo. Se gritarmos alto, vai nos ouvir." O público atendeu.

Foi a deixa para o telão mostrar imagens de vários momentos da vida de Mandela, que deve fazer breve aparição hoje no Soccer City, antes de a bola rolar para África do Sul x México. Aplausos, choro, reverências nos camarotes oficiais.

Celebração. A festa batizada de Celebration Concert (Concerto da Celebração) começou às 20 horas - 15 horas em Brasília -, com o trompetista Hugh Masekela e a cantora Lira esquentando o público com Pata Pata, sucesso de Miriam Makeba nos anos 60. Na sequência, o Black Eyed Peas, um dos grupos mais badalados da atualidade, fez os cerca de 30 mil espectadores pularem com o hit I Got a Feeling.

A primeira pausa na música foi para a entrada em cena de Jacob Zuma, presidente da África do Sul, e Joseph Blatter, presidente da Fifa. O cartola, com terno escuro e cachecol branco, disse que o futebol "não é um jogo, mas forma de inclusão", e anunciou o engajamento da entidade no projeto que prevê educação para milhões de pessoas no continente nos próximos anos. O lema da campanha - "1goal, education for all", um trocadilho com a palavra que tanto significa "gol" como "objetivo" - foi reforçado com vídeos e depoimentos de astros do futebol, como Lucas Radebe (vaiado ao entrar no palco), Okocha, Beckenbauer (ignorado pela transmissão das brasileiras Globo e Band), Sócrates e Karembeu. No telão, apareceu Pelé. Mais aplausos.

O presidente Zuma, que vive crise governamental (enfrenta forte oposição) e familiar (expulsou de casa uma de suas mulheres por adultério), foi muito aplaudido ao agradecer a Fifa, por apostar na África, e principalmente o povo de seu país, pela forma calorosa com que tem recebido os turistas. "Peço que seja assim até o final da Copa."

Variedade. O show oscilou momentos de empolgação a recepções mais mornas do público. Ficou clara a tentativa dos organizadores de abrirem espaço para representantes de várias tendências, sobretudo porque artistas sul-africanos protestaram pela presença de muitos convidados de fora e prometiam fazer shows alternativos, no mesmo horário, como protesto.

Um dos pontos altos do show ficou para o somali K"naan, que agitou uma bandeira de seu país e levantou o público com Wavin" Flags, música oficial da Copa. O refrão é contagiante com a repetição ritmada de "Oh oh oh oh oh...". Will.I.Am, do Black Eyed Peas, subiu ao palco com K"naan e exibiu uma bandeira do Brasil.

O fecho de ouro foi reservado a Shakira, exuberante e sensual com uma saia zulu e top zebrado. Ela cantou She Wolf, Hips don"t lie e Waka, Waka (This time for Africa).

Antes do encerramento, Danny Jordaan, presidente do Comitê Organizador, e Jérome Valcke, secretário-geral da Fifa, falaram em festa, liberdade e educação. Um vídeo mostrou gols e os capitães vencedores de cada final de Copa desde 1930, exceto uma: na disputa de 1958, Bellini apareceu com a Jules Rimet, mas o gol exibido era um dos que o Brasil marcaria quatro anos depois, contra a Checoslováquia. Uma pequena bola fora numa festa linda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.