Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

'Sonho com a Olimpíada, e estar lá é cada vez mais real'

Nadador bate recorde e é a nova esperança da natação

Entrevista com

Brandonn Pierry Almeida

Marcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2015 | 17h00

Alguns dos principais nomes da natação brasileira cruzaram as raias de águas cristalinas da piscina do Fluminense, nas Laranjeiras, zona sul do Rio, na última semana. Cesar Cielo, Joanna Maranhão, Thiago Pereira, Etiene Medeiros, Bruno Fratus e tantos outros nadadores de uma geração que vem fazendo história deram suas braçadas no Troféu Maria Lenk, uma das mais tradicionais competições do País.

No Maria Lenk, 20 índices para o Mundial de Esportes Aquáticos - que será disputado em agosto na cidade de Kazan, na Rússia - foram alcançados. E pelo menos um deles mereceu atenção especial. Na terça-feira, Brandonn Pierry Almeida, atleta que, com apenas 18 anos, ainda tem idade júnior, fechou a prova de 1.500 m livre com o tempo de 15min12s20, batendo em 49 centésimos o recorde brasileiro que pertencia a Luis Arapiraca e perdurava desde 2011. A marca de Brendonn lhe rendeu o ouro e a presença no Mundial Adulto.

Curiosamente, o recorde foi estabelecido numa prova que nem é a sua especialidade. “Minha preferência é pelos 400m medley”, afirmou ao Estado. Um dia antes, ele foi prata nessa prova. Ele perdeu para Thiago Pereira, mas, com 4min15s82, também fez índice para o Mundial Adulto.

Apesar da pouca idade, a nova revelação da natação brasileira demonstra maturidade. Mesmo que o nadador do Corinthians já fosse apontado como o principal nome do País para o Mundial Júnior, em Cingapura - ele tem vaga assegurada em quatro provas -, Brandonn diz que o foco está nos treinamentos, não nas expectativas. Ele não esconde, porém, o desejo de disputar a Olimpíada do próximo ano. “Sempre tive isso na minha cabeça, e hoje está cada vez mais real.”

O ouro nos 1.500 m livre, com o recorde brasileiro, era uma marca que você já esperava?
Era uma marca que eu tinha como objetivo, que sonhei. Mas, sinceramente, achava que estava um pouquinho longe do que eu podia fazer. Esperava baixar meu tempo, tinha isso como meta. Claro que sonhava em obter o índice (para o Mundial) e bater o recorde brasileiro, mas não tinha certeza de que conseguiria nesta competição.

Desses três feitos (ouro, recorde e vaga no Mundial Adulto), qual você considera o mais marcante?
Os três, mas se for escolher um, o recorde brasileiro. Eu não esperava, era uma marca de 2011 e bem difícil de ser batida.

Você também chegou em primeiro no Troféu José Finkel. A prova dos 1.500 m livre é sua disputa favorita?
É uma prova que eu gosto, mas não é a minha favorita. Treino para 400 m medley, mas consigo nadar os 1.500 m bem também. Minha preferência é o medley.

Os bons resultados estão aumentando a sua visibilidade, o que também aumenta a pressão. Como você lida com isso?
Tenho isso muito tranquilo na minha mente, de até onde eu quero chegar, e isso não se torna uma pressão. Não gosto de falar muito dos meus objetivos, prefiro trabalhar e mostrar. Tenho um psicólogo, o Luis Orione, e nosso trabalho já é feito há dois anos. Ele trabalha bastante comigo isso de não criar expectativas, de que é preciso treinar, porque se você treinar você vai chegar onde você quer.

Além desse trabalho psicológico, há algum outro tipo de apoio?
Eu tenho apoio de nutricionista, jornalista, um gestor... É uma equipe multidisciplinar de excelente nível. Assim, a minha única preocupação é nadar bem.

Como começou a sua história com a natação?
Aprendi a nadar com três anos. Comecei por incentivo da minha mãe, que sempre gostou de esportes, e ela foi colocando eu e meus irmãos. Um deles (Bruce Hanson, de 16 anos), inclusive, nada as mesmas provas que eu. Ela nos colocou em vários esportes para ver em qual nós nos adaptávamos, e gostamos mais da natação. 

Quando percebeu que poderia fazer disso uma carreira?
Foi quando fui me dedicar somente à natação, aos dez anos. Parei com os outros esportes e decidi que era isso mesmo que eu queria. Mas não era nada pensando em profissional, era o que eu gostava mesmo. Comecei no próprio Corinthians, sou da base.

Como é sua rotina de treinamento?
Tenho nove treinos semanais. Também faço musculação e trabalho funcional, sempre no Corinthians.

Em quem você se espelha?
Tenho dois ídolos na natação: o Thiago Simon e o Leonardo de Deus. Por eu treinar com eles e acompanhar a rotina deles, eles se tornaram meus ídolos. E me espelho muito no Michael Phelps, pela trajetória dele, pelos títulos que tem. É um nadador muito bom.

Seu planejamento é feito visando cada ano ou é de longo prazo?
Ambos. Eu e meu treinador, o Carlos Matheus, trabalhamos com metas a longo prazo e a curto prazo.
A curto prazo teremos este ano o Pan-Americano, o Mundial Júnior, em Cingapura, e o Mundial Adulto, na Rússia.

Você pretende disputar todas essas competições?
Semana que vem estou indo para o Sul-Americano Juvenil, que vai ser no Peru, e quando voltar vamos traçar nossas metas. Meu foco mesmo é o Mundial Júnior. É a última edição que vou poder participar, mas eu gostaria muito de representar o Brasil também no Pan e em Kazan, na Rússia.

Você se vê disputando os Jogos Olímpicos do Rio em 2016?
Eu me vejo, sim. Treino para isso, é um foco, um objetivo. Hoje eu estaria classificado, mas serão três seletivas, duas este ano e uma no ano que vem. Tenho de treinar forte para poder representar o meu país. Acho que esse é o sonho de qualquer atleta. A gente sonha com isso, eu sempre tive isso na minha cabeça, e hoje está cada vez mais real a possibilidade de eu poder participar dos Jogos Olímpicos.

Muitos medalhistas brasileiros, em algum momento, preferiram treinar fora do País. Esse também é um objetivo para a sua carreira?
Hoje, treinando no Brasil, nós temos condições de disputar com os melhores do mundo. Por enquanto estou conseguindo resultados e não vejo essa necessidade de treinar fora.

Como você vê a estrutura para treinos no Brasil?
A estrutura do meu clube é muito boa. O Corinthians oferece tudo o que a gente precisa para que consigamos os melhores resultados. O Brasil está em um caminho legal, em evolução, e acho que com a Olimpíada de 2016 a tendência é só melhorar.

Você considera que a natação brasileira está no mesmo nível das grandes potências no esporte?
Creio que sim. Temos vários nadadores muito bons, que estão no topo do ranking mundial. Acho que o Brasil está crescendo bastante por causa da Olimpíada e a tendência é ainda melhorar.

Como é ser nadador profissional no Brasil atualmente? Você vê incentivo, seja público, privado ou por parte das federações?
Nós temos bastante incentivo, como o Bolsa Atleta, que é dado pelo governo federal. Eu não tenho patrocínio e, inclusive, estou à disposição (risos).

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