Sonho e pesadelos

A vida é movida a sonhos - não importa se pequenos ou grandes. A busca por proezas sacode a rotina dos viventes, embora desilusões, frustrações e desenganos também façam parte do script de todos nesta aventura na terra. No esporte, não é diferente. Corinthians e seus seguidores curtem hoje o êxtase por uma façanha bem próxima de ser conquistada. Santos e São Paulo ficaram com o micos não mão e estão a engolir em seco.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 03h04

Corintianos choraram, rezaram, riram, pularam, se abraçaram no Pacaembu, enquanto a bola rolava. E, assim que terminou o clássico, levaram a euforia madrugada adentro. A chuva, o frio, o céu de chumbo de ontem refletiam, talvez, espírito santista ou são-paulino. Para a tropa da fiel, brilhou sol interior. Não poderia ser diferente para quem curte, pela primeira vez, o encantamento da disputa por título continental.

Dentro de duas semanas, quem sabe?, a Taça Libertadores deixe de ser enigmática, inatingível, motivo de zombaria dos rivais e causadora de insônia alvinegra. Ela está ao alcance da mão, apesar do desafio que resta contra gringo tinhoso. São dois jogos, apenas. Um nadica diante do sofrimento de décadas, uma distância galáctica por causa dessa expectativa. Corintiano respira, come, dorme Libertadores até o dia 4 de julho.

Corintiano, no caso, não é apenas o fã, pois este está em transe constante. É até redundante falar da ansiedade popular. Jogadores, comissão técnica e diretoria são a parte essencial da engrenagem que tem de funcionar. Agora mais do que nunca são necessárias concentração, entrega, união. Conceitos banais, na aparência, lugares-comuns repetidos à exaustão, mas que formam a base do segredo para o sucesso de um grupo sem nada de extraordinário.

Repare como não há um jogador que desequilibre na turma de Tite. O último grande nome foi Ronaldo, que, mesmo bojudo, fora de forma, em fim de linha, despertava temor do outro lado, impunha respeito, desencadeava reverência. Na sequência, seria Adriano, se não esbarrasse em contusões e nas topadas que ele mesmo procura. Imperador deposto, sobraram lanceiros, os ponta de lança que dão conta do recado.

O Corinthians de agora não joga bonito, não provoca suspiros por causa de dribles e lindas triangulações, nem ostenta a melhor formação da história centenária. No primeiro tempo do duelo de anteontem, abandonou até a característica de marcar o rival à frente e lembrou mais o Chelsea, tão criticado pela retranca e que Tite abomina como parâmetro para o time dele. Na segunda parte, depois de tomar o gol, encheu-se de brios, comportou-se como grande e liquidou a pendenga. Esse Corinthians pode ser campeão da América, e com méritos - pelo jogo coletivo e consistente, nem sempre brilhante, mas inegavelmente eficiente.

O pesadelo assombrou o Santos, incensado como a equipe mais atrevida do futebol brasileiro recente. Por ter Ganso e Neymar, largava adiante - sem que isso parecesse presunção. O que mudou, então? O desempenho das duas estrelas. Ganso não se recuperou de todo da cirurgia, Neymar ficou sobrecarregado de funções, vigiado e isolado no ataque. O restante do time (técnico incluído) travou. É momento de reconstrução.

Outro que deve repensar estratégia, dentro e fora de campo, é o São Paulo. Faz algum tempo que a cartolagem anda sem norte e se desorientou pela soberba. Isso se reflete no elenco, que não é ruim, porém está longe de ser o suprassumo. O tricolor deitou em glórias e caiu da cama.

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