Sonho realizado

Não sei interpretar sonhos, nem para fazer alguma fezinha e muito menos para dar-lhes significado psicanalítico, o que deixo para os profissionais da área. Não entendo nada, também, de autoajuda e benesses do gênero, o que me impede de oferecer bons conselhos para quem pretende perseguir seus anseios. Só sei que sonhos às vezes se tornam realidade. Como aconteceu com aquele de Arouca - e, por extensão, do Santos, no final da tarde de ontem.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

O volante teve, digamos, a premonição de que marcaria na final com o Corinthians, e não é que conseguiu?! Na primeira etapa, ainda, abriu o caminho para o título, ao romper a barreira adversária. Por muito tempo, o 1 a 0 garantia a proeza de Arouca e seus companheiros. Mas houve espaço para o gol de Neymar aumentar a vantagem e até para Morais levar ligeira, muito leve mesmo, esperança de reviravolta no fim. Reação que afinal não se consolidou.

O clássico que começou com tempo bom e terminou sob chuva, na Vila Belmiro, não se resumiu, porém, ao gol sonhado por Arouca, nem àquele marcado pelo futuro e jovem papai Neymar, muito menos à dedicação de Morais, que havia entrado no lugar de Bruno César e por pouco não ajuda a tornar o jogo dramático. O capítulo de encerramento do Campeonato Paulista de 2011 foi sobretudo a premiação de uma equipe que, mais uma vez, fez do equilíbrio e da eficiência suas características marcantes.

O Santos não é extraordinário, tecnicamente está até aquém daquele do primeiro semestre do ano passado, quando era mortal no ataque, atrevido nos dribles e contava com pérolas em fase de polimento, como Ganso, Neymar e (naquele momento pelo menos) André. Todos com Robinho como mentor e como Dorival Júnior como o "professor".

Mas a equipe que Muricy Ramalho pegou com a competição em andamento também tem qualidades, a principal delas no fim das contas foi a paciência. O tal DNA ofensivo, alegado pelo presidente Luis Álvaro para demitir Adilson Baptista, existe, embora tenha sido reprimido nas últimas semanas, em função dos mata-matas, das viagens e do desgaste físico. O Santos abriu mão do ritmo ostensivamente forte na frente, para tornar-se mais cerebral. Ou seja: aprimorou a marcação e soube ser prático. A tal da opção de jogar com o regulamento.

Deu resultado, tanto que sofreu apenas um gol (o de ontem) nas últimas sete partidas. Segue adiante na Libertadores e fez a festa de mais uma copa doméstica. Não há razão para botar água no chope do torcedor, que tem mais é que alegrar-se. Não importa que diminuam o valor do Campeonato Paulista, título e taça nunca se desprezam. Só faria um reparo: o time correu riscos, ao deixar que o Corinthians pressionasse no segundo tempo. Poderia ter liquidado com alguma facilidade, se mantivesse presença constante na área do rival e se Neymar não desperdiçasse chance cara a cara com Júlio César, no fim do primeiro tempo, para fazer o segundo gol. Prefiro o ataque como forma de o Santos alcançar seus objetivos.

Não há, porém, como negar valor à estratégia traçada por Muricy e seguida por seus jovens. O Santos atento e pragmático tratou de resolver tudo em meio tempo. Por isso, jogou em cima do Corinthians nos 45 minutos iniciais. Foi nessa fase que criou a maior parte de suas oportunidades. Parecia o pugilista que parte para sequência de golpes e sente o adversário baquear. Mas, mesmo quando acuava, não esquecia do jogo coletivo. Zé Love, por exemplo, teve participação decisiva no gol de Arouca e, em vários lances, chegou a combater na intermediária. Era, mais do que nunca, o um por todos e todos por um que Muricy tanto admira.

O bloco se manteve coeso até na etapa final, ao ver o Corinthians crescer. Tite fez o que estava a seu alcance, com as alterações de praxe: saíram Dentinho, Paulinho e Bruno César, para a entrada de William, Ramirez e Morais. As mudanças surtiram pouco efeito. A equipe pressionou, rondou a área santista, só que derrapou em suas próprias limitações e, embora com volume louvável, deu três, quatro chutes com perigo. Pouco, para quem queria ser campeão.

O Santos dizimado por contusões (Jonathan é a vítima mais recente e Leo voltou a queixar-se de dores) se supera com talento e dedicação. E pode agora concentrar-se em alvo maior: a Libertadores. Está com cara, no mínimo, de que vai á final. Tomara.

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