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Antero Greco
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Sopros de sensatez

A gente costuma descer a lenha em cartolas pela leviandade com que lidam com o dinheiro dos clubes. Como não é deles mesmo, gastam os tubos, investem a torto e direito, muitas vezes sem critério, e só fazem aumentar o endividamento. Pior quando dão calotes, em jogadores, treinadores, funcionários em geral, fornecedores e, principalmente, em órgãos públicos. Não é à toa que morrem de medo de ver aprovada lei federal que lhes cobre responsabilidade fiscal e pontualidade nas contas.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2015 | 03h40

Por isso, no momento em que o Corinthians decidiu não renovar contrato com Paolo Guerrero para não estourar mais o já anêmico orçamento, a atitude merece elogio. O clube está com o cinto pra lá de apertado, atrasou salários e direitos de imagem do elenco, viu jogadores virem a público para abrir baú de insatisfações, tem papagaios do estádios para vencer. Em resumo: flerta com a pindaíba.

Não fazia sentido, portanto, despejar 20 e tantos milhões de reais num atleta de 31 anos e que exigia parceria por mais cinco temporadas. Guerrero é bom jogador - e isso mesmo, bom, nem excelente nem fora de série -, mas soava jogada estapafúrdia cobrir-lhe de dinheiro e arriscar-se a não honrar a assinatura. Ou, pior, estender desconforto para o restante do grupo. E ciumeira de boleiro é uma desgraça...

Nada contra Guerrero. Cada profissional sabe da própria carreira e pede o que considera viável para permanecer numa equipe. Da mesma maneira, o clube olha o próprio caixa, faz cálculos e pondera se lhe é conveniente aceitar a pedida ou apresentar contraproposta. A isso se chama negociação, um procedimento corriqueiro. (Resta saber como o atacante reagirá em campo, daqui em diante e também como a torcida vai tratá-lo até o meio de julho.)

O Corinthians precisa entrar de cabeça em administração coerente. Incoerência alardear grandeza, se o balanço não fechar. Anos atrás outra direção alvinegra fazia projeções magníficas, segundo as quais a esta altura o clube estaria entre os mais poderosos do mundo. Ultrapassaria até vários bichos-papões da Europa. E lascou a torrar dinheiro de tudo que foi jeito.

O descontrole financeiro não ficou só no passado. Recentemente, recontratou Cristian, que andava esquecido, com vencimentos de quem está em alta. Também foi à China, atrás de Vagner Love. O centroavante marcou dois gols até agora e sai de cena por um punhado de dias para aprimorar a forma física. Explicação que não convence.

Se a maré econômica no Brasil baixou, não é heresia precaver-se. Isso é o que, aparentemente, o Corinthians começa a fazer. Por motivo semelhante ao de Guerrero (bufunfa curta), vai abrir a porta de saída para Sheik e, até o fim do ano, para outros. Há perigo de queda de desempenho. Mas está na hora de tentar algo novo. Por exemplo: olhar com carinho para a base. Inadmissível perder pra Itália promessa como o jovem Cassini, sob a alegação de que não tem espaço no elenco profissional. Abra-se esse espaço.

O raciocínio de pisar no freio vale para o Santos, que se antecipou aos rivais e liberou diversos jogadores no início do ano, até por ações na Justiça. No fundo, a diretoria se sentiu aliviada, pois a folha de pagamentos deu uma revigorada. Mesmo assim, tem dificuldade para colocar as finanças em dia e se descabela para segurar Robinho, destaque do grupo e o maior salário da companhia. Foi atrás de empréstimo, porém com o compromisso de pagar tudo.

Robinho chiou abertamente e não teve constrangimento de advertir que, se não receber, pega as coisas e vai pra outra freguesia. Não cola o discurso de paixão pela casa de origem, a cidade e etc. Balela. Ele é profissional e olha o umbigo - nem está errado por agir assim. Amor à camisa é bacana, desde que venha acompanhado de envelope cheio.

Tais episódios revelam que algo começa a mudar no comportamento dos executivos do futebol. Tomara não seja fogo de palha, pois a médio e longo prazos as coisas melhorarão.

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