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S.O.S. futebol

A guerra em que se transformou o clássico expõe a incapacidade do Estado de gerir a segurança pública. Se os velhos estádios brasileiros lembram arapucas, os novos geram temor pela sua modernidade. Entre o arcaico e o novo, não existe solução. O abacaxi também está na gestão do evento esportivo, incapaz de se atualizar para atender novas demandas, seja por meio de legislação específica ou simplesmente pelo exercício das boas ideias.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2015 | 02h02

Lamentavelmente, o futebol, que é o que interessa, acaba ficando em segundo plano, pois vai perdendo, lenta e sistematicamente, sua força por aqui. Mesmo assim, apesar de todos os confrontos e conflitos, ainda havia um jogo para ser disputado, o primeiro clássico no novíssimo Allianz Parque.

Com apenas cinco nomes da equipe titular, Tite idealizou um Corinthians defensivamente sólido. De Cássio a Petros, escalou oito jogadores com características defensivas, para travar o meio de campo palmeirense e interferir na criação da equipe de Oswaldo, que tinha Maicon Leite, Robinho e Allione bem marcados.

Petros foi designado para o setor direito, bem aberto, com o objetivo de minimizar a importância de Zé Roberto na armação. E se transformou em peça fundamental da vitória. Ao aproveitar vacilo do zagueiro Vitor Hugo e oferecer o passe do gol de Danilo, definiu a partida.

Tite conseguiu o que queria, pelo menos até a expulsão de Cássio, aos 12 minutos do segundo tempo. O Corinthians tinha mais posse de bola e controlava o ímpeto do Palmeiras, ainda sem a organização tática que Oswaldo pretende dar ao time.

O Palmeiras precisa de tempo. Um clube com 19 contratações é a confirmação do fracasso da temporada anterior. O volume de chegadas e de partidas lança uma aposta para o futuro, com reflexo positivo no ânimo do abalado torcedor palmeirense.

Com o estádio novo e com o dobro do dinheiro da temporada passada, graças ao empenho de recursos do próprio presidente Paulo Nobre, foi possível contratar bons jogadores, como Arouca, Dudu, Zé Roberto e Cleiton Xavier.

Oswaldo possui opções táticas e técnicas, mas está apenas no início da missão de formar um time de verdade. A primeira etapa está feita, a reformulação mudou o ambiente, mas não é garantia de sucesso. O palmeirense, a quem tanto se recomendou paciência no final do ano passado, precisa contribuir com seu apoio.

Fora do campo, por menor e menos importante que seja o campeonato, a cada partida o futebol brasileiro, ainda bastante sensível aos interesses de associações criminosas, lança um sinal de socorro. Somos todos reféns da incompetência dos agentes públicos, incapazes de trabalhar preventivamente para tirar a turba violenta de circulação.

Proibir a presença de torcedores corintianos no Allianz Parque seria a assinatura do caos. Entre o temor e a coragem, a sexta-feira foi épica, demonstração inequívoca de que a Copa do Mundo passou por aqui sem deixar nenhum rastro positivo.

No sábado, mesmo sem clássicos programados para a cidade de São Paulo, corintianos atacaram são-paulinos dentro de um vagão do metrô na estação Carrão. Está na cara que o problema não é o jogo.

Mesmo com dois dos estádios mais modernos do País, Palmeiras e Corinthians travaram uma batalha mesquinha a favor e contra a torcida única no clássico.

Assim caminha a administração do esporte no Brasil. E não parece haver saída enquanto o futebol não for percebido como importante atividade econômica e de profundo conteúdo social.

O jogo é só uma desculpa, um pequeno detalhe da complexidade que move a segurança pública. E que só piora em função da quase sempre desastrosa participação dos cartolas.

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