''SP quer mais do que a abertura''

ORLANDO SILVA, Ministro do Esporte que será mantido no cargo no próximo governo

Silvio Barsetti, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2010 | 00h00

O ministro do Esporte, Orlando Silva, esteve ontem no Rio para reunião de rotina com integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI). Teve mais uma vez de explicar aos visitantes o porquê do atraso na criação da Autoridade Pública Olímpica (APO) - uma exigência do comitê, que delega ao órgão a coordenação do projeto olímpico na esfera pública. Em entrevista ao Estado, ele falou sobre a APO e a expectativa de que o estádio de Itaquera seja aprovado pela Fifa. Também deixou claro que não está na agenda do ministério a discussão sobre a perpetuação de dirigentes no comando de entidades esportivas.

Por que a APO (Autoridade Pública Olímpica) não sai do papel?

Ela depende de uma complexidade de normas. Estou convencido de que será consolidada no começo de 2011. A APO consta da MP502/2010, que tem eficácia até fevereiro. Se, numa eventualidade, não for aprovada - não acredito nisso -, a presidente Dilma Rousseff poderia reedita-la. A APO precisa da aprovação dos três níveis de governo. No plano federal, vai se concretizar. O Estado do Rio já a aprovou. E o prefeito Eduardo Paes me garantiu que vai trabalhar pela votação na Câmara de Vereadores antes do carnaval.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) já se manifestou publicamente mais de uma vez sobre a demora da criação da APO. Como evitar novos constrangimentos na relação com o comitê?

Falando a verdade, nós optamos por criar um consórcio inédito no País e dois dos três níveis de governo passaram por eleições recentemente. Isso teve um impacto na consolidação de projetos e iniciativas, como a da APO. Então, estamos dizendo ao COI a verdade, estabelecendo uma relação de confiança.

Seu nome é cotado para exercer o cargo de Autoridade Pública Olímpica. Não seria conflitante para o ministro do Esporte o acúmulo de funções?

O grau de qualificação e de capacitação das equipes técnicas que vão conduzir o trabalho da APO é mais importante do que falar ou debater sobre o nome de quem vai presidir o consórcio.

Qual a garantia de que haverá ocupação das instalações esportivas dos Jogos a partir de 2016?

A primeira coisa a fazer é produzir instalações provisórias quando não houver necessidade de obras permanentes. Depois, reduzir a capacidade de público onde for possível.

Quanto custará ao governo federal a Copa de 2014 e os Jogos de 2016?

Não existe um número final. Há temas, como segurança, que ainda não têm plano operacional definido. Sem isso, não há condição de chegar a uma conta. O que se sabe é que só para 2011 o governo vai investir R$ 1,5 bilhão para a Olimpíada.

Está otimista quanto à aprovação do estádio de Itaquera pela Fifa?

Recebi notícias positivas do próprio Corinthians, dono do estádio, e do empreendedor do negócio. Estive dias atrás com o prefeito Gilberto Kassab e guardei uma frase dele que me tranquilizou. Ele disse: "Ministro, fique tranquilo que vamos resolver o assunto do estádio em São Paulo." Mais que isso. Ele me informou que tomou providências para que não apenas a abertura seja em São Paulo, mas que a cidade receba também o Congresso da Fifa, o que exige oferta de um centro de eventos. O prefeito está muito seguro e me passou confiança.

A lei que garante isenção fiscal para os gastos da Fifa com a Copa de 2014 gerou algum desconforto ao governo federal?

O Brasil firmou compromisso com a Fifa de encaminhar essas isenções e, daqui a pouco, haverá uma nova lei para renúncia fiscal visando à realização da Olimpíada, acordo prévio com o COI. Essa redução da arrecadação não causa nenhum constrangimento, estava programada.

Quais as prioridades de políticas públicas do Ministério do Esporte a partir de 2011?

Há vários desafios. Um deles é criar um programa que alie esporte e atividade física, com o Ministério da Saúde. Se a gente observar os indicadores, há redução de doenças no Brasil de todos os tipos, exceto das que têm como fator gerador a obesidade. Também pretendemos interagir cada vez mais esporte e escola e já há um piloto em curso em parceria com o Ministério da Educação.

Faz parte da agenda do Ministério do Esporte a discussão sobre a perpetuação de dirigentes nas entidades esportivas?

Houve um tempo em que o Estado tutelava. Foi assim desde 1941, quando Getúlio Vargas normatizou pela primeira vez a atividade esportiva. Em 1988, a Constituição deu autonomia às entidades. Na minha opinião, elas devem ter uma dinâmica, quanto mais democráticas e participativas, melhor. Mas não cabe ao Estado intervir.

Logo depois de escolhido por Lula para ocupar o Esporte, em 2006, o senhor disse que a tradição brasileira preza a transição sem ruptura. Desde então, houve algum sinal de transição nas principais entidades esportivas do País?

Há uma evolução muito positiva na gestão do esporte no Brasil. O desafio agora é reforçar a economia do futebol brasileiro, Há potencial para isso. Olhe o exemplo do Corinthians nesse período presidido por Andrés Sanchez. O crescimento das receitas do clube é fabuloso. Veja também o nível alcançado pelo São Paulo. Podemos crescer ainda mais diversificando as fontes de receita. Bilheteria dá muito pouco, licenciamento de produtos no Brasil é quase nada se comparado com o mercado europeu. Eu me interesso mais por esses temas, pelo mérito de programas, medidas, e iniciativas que fortaleçam a economia do futebol. Para mim, isso vale muito mais do que discutir se fulano, beltrano ou cicrano têm de ter um ou dois ou três mandatos.

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