Christian Monterrosa/ NYT
Christian Monterrosa/ NYT

Stanford corta suas equipes, e os candidatos às Olimpíadas de todo o país estão assustados

Universidade cortou cerca de um terço dos 36 programas por conta da 'realidade financeira imposta pela covid-19'

Juliet Macur, The New York Times

27 de agosto de 2020 | 16h00

A universidade de Stanford anunciou abruptamente que decidiu cortar as equipes de vôlei masculino, esgrima, remo leve, remo masculino, hóquei sobre grama, squash, nado sincronizado, luta livre e vela misto e feminina. A notícia não desesperou apenas os 240 atletas e os 22 treinadores afetados diretamente pela decisão, mas também apavorou a comunidade olímpica americana.

Kyler Presho, jogador da equipe de vôlei, conta que lembra de todas as vezes em que os diretores da universidade declararam que estavam todos juntos nessa. Os atletas de Stanford eram uma família, diziam. Fundamentais para a vida. E ele acreditava. Este apoio e esta consciência são o motivo pelo qual ele tinha como tradição subir ao topo das arquibancadas antes dos jogos em casa, e olhar para o grande “S” na metade da quadra, orgulhoso de estar em uma das principais universidades onde 1 em cada 8 estudantes joga em algum esporte universitário.

Mas no mês passado, semanas antes do início do seu último ano, Presho foi pego de surpresa com a decisão da  universidade, que cortou cerca de um terço dos 36 programas da escola. As últimas temporadas destes esportes serão as de 2020/2021, desde que a pandemia permita. 

De acordo com a diretoria, os cortes foram o "extremo recurso" e a universidade vai honrar as bolsas dos estudantes e os contratos dos treinadores. A medida se deve "à nova realidade financeira imposta pela covid-19 e a um crescente déficit que tentava conter há anos. Stanford projetava um déficit de US$ 70 milhões nos próximos três anos, se não cortasse as 11 equipes.

"A palavra perfeita para descrever isto é cruel", disse Presho de sua casa em San Clemente, Califórnia. "Venho de um lar falido, e este parece o mesmo tipo de situação. A vida que conhecemos nos foi tirada de uma hora para a outra. Foi como se alguém tivesse morrido ou algo parecido".

OLIMPÍADA

Todos os esportes cortados, com a exceção de squash, estão nas Olimpíadas, e há gerações. Stanford tem sido uma usina não oficial de campeões olímpicos. Os seus atletas ganharam cerca de 300 medalhas olímpicas no total, e na Olimpíada de 2016, ganharam mais do que os atletas de qualquer outra universidade - 26 medalhas, 14 de ouro. 

Stanford é conhecida por produzir integrantes das equipes nacionais e astros como a nadadora Katie Ledecky, o decatleta Bob Mathias, a jogadora de softball Jessica Mendoza e a jogadora de vôlei de praia Kerri Walsh Jennings.

A equipe masculina de vôlei ganhou dois campeonatos da NCAA (associação esportiva nacional) e produziu 10 campeões olímpicos, mais de vinte jogadores estão na seleção americana e um treinador por duas vezes à frente da equipe olímpica. Dois ex-alunos de Stanford estão neste momento na seleção, e outros dois poderiam estar na corrida para os jogos Olímpicos de Tóquio do próximo ano.

“É algo absolutamente devastador para os atletas olímpicos”, disse Alexander Massialas, no curso de pós-graduação, medalhista olímpico na esgrima, comentando a decisão da universidade.

Os cortes eliminaram efetivamente uma parte fundamental do modelo de formação olímpica dos Estados Unidos. Em universidades como Stanford, que oferece mais esportes universitários do que praticamente qualquer outra universidade americana, os aspirantes a campeões olímpicos têm todos os recursos para treinar, enquanto a competição interuniversitárias os prepara para o nível internacional. É desta forma que uma equipe Olímpica americana se mantém sem os robustos programas de treinamento centralizados dos  outros países.

Os diretores dos departamentos de esportes atléticos de Stanford, não quiseram comentar os cortes, mas um comunicado online postado em julho declarou que a universidade havia esgotado “todas as possíveis alternativas”. Por outro lado, acrescentou o comunicado, usar a doação de $ 27,7 bilhões da escola não seria uma opção porque se destina a outras coisas, como a ajuda financeira, e porque a universidade queria que o seu departamento de atletismo cobrisse seus próprios gastos. A manutenção definitiva dos 11 programas universitários custaria mais de $ 200 milhões para garantir que fossem competitivos, disse a universidade.

A preocupação dos esportes olímpicos é a seguinte: Se Stanford, com seus bilhões de dólares e doadores muito ricos, não pode manter estes esportes, como poderão fazer as universidades dotadas de muito menos recursos e ajuda de ex-alunos? Erik Shoji, ex-jogador de vôlei americano de Stanford que ganhou uma medalha de bronze nas Olimpíadas de 2016, disse que a decisão da universidade poderá ter um perigoso efeito dominó.

“Quem diz que a Ohio State e a Penn State não irão cortar seus programas e culpar Stanford por isso?” disse Shoji, que está na seleção com o irmão Kawika, outro que faz pós-graduação em Stanford. “E depois, do ponto de vista do nosso esporte, se não houver vôlei universitário, não haverá vôlei de base, por isso nós prevemos possíveis ramificações terríveis para o nosso esporte”.

OUTRAS UNIVERSIDADES

Dezenas de universidades cortaram recentemente os esportes que não ganham dinheiro, atribuindo o efeito antecipado da pandemia sobre a receita. Muitas temem que o cancelamento de uma temporada de futebol universitário americano signifique bilhões de dólares de receitas perdidas.

Não há nenhuma emergência para o vôlei masculino até o momento, observou Jamie Davis, diretor executivo do USA Volleyball, o organismo nacional que coordena o esporte. Davis espera que o vôlei continue crescendo nos cursos pré-universitários, com o ingresso de mais jovens que estão desistindo dos esportes de contato como o futebol americano, onde os danos à cabeça já preocupam.

Embora somente cerca de 64 mil jovens tenham jogado vôlei no curso secundário em 2018-19 - em comparação com 1,09 milhão que jogaram futebol americano naquele ano letivo - a participação aumentou 22% em cinco anos, enquanto na modalidade de futebol americano diminuiu 8%, segundo as National Federation of State High School Associations.

“A boa notícia, até o momento, é que nós não vimos grande número de outros cortes depois da decisão de Stanford”, disse Davis. “Mas obviamente estes são momentos difíceis para os esportes universitários em um mundo com covid-19”.

Gerald Gurney, professor assistente da Universidade de Oklahoma e ex-presidente do Drake Group, que visa a garantir a integridade destes atletas, não confia na desculpa apresentada por Stanford de que os cortes foram motivados por razões meramente financeiras. Se a universidade quisesse, afirmou, poderia ter mantido os programas durante a pandemia e depois dela, ou ter aceito o dinheiro arrecadado pelos seus outros esportes.

Os cortes, segundo Gurney, revelaram “uma mudança de filosofia da direção” da universidade. “O que eu vejo é que Stanford está montando um modelo que se assemelha ao das poderosas escolas de futebol americano”, disse Gurney, que ensina atletismo nos cursos superiores e ética no atletismo interuniversitário. “O que eles querem é mais dinheiro para o futebol americano e o basquete, e não se preocupam com os outros esportes. Em última análise, o que parece importar nesta nova era é vencer no futebol americano e no basquete”.

A comunidade de vôlei masculino ainda está tentando convencer Stanford de que cometeu um erro. Mais de 125 jogadores atuais e anteriores do programa se esforçaram para arrecadar dinheiro e conseguir apoio, e outros como Presho escreveram cartas ao presidente da universidade, ao diretor de atletismo e ao conselho de direção defendendo a preservação do time.

A iniciativa rendeu mais de US$ 5,8 milhões em compromissos, e os jogadores atuais continuam se encontrando com o diretor de atletismo, Bernard Muir, afirmou Jeremy Jacobs, um ex-jogador que é o porta-voz não oficial da campanha. Mais de 35 mil pessoas assinaram uma petição online para que a equipe seja mantida.

“Acho que para a universidade nós não éramos um esporte popular, e no entanto, regionalmente ele é muito popular”, afirmou Ken Shibuya, chefe da equipe de treinadores e encarregado do recrutamento. “Mas a coisa que realmente me incomoda é que nós somos um programa de baixo custo; não há sobrecarga para os jovens - só tivemos 15 afastados na temporada passada por causa de machucados - e os nossos custos com viagens aqui na Califórnia não são tão ruins”.

Shibuya disse que está decepcionado pelos jogadores, principalmente os recrutas que esperava contratar no outono. Hunter Dickey, transferido da Orange Coast College, é um deles. Quando soube que Stanford cortou a sua futura equipe, ele e sua mãe choraram. “Jogar em Stanford é a chance da minha vida”, ele disse em uma entrevista. “No começo  falei: ‘Estão brincando comigo? Isto não pode estar acontecendo’”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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