Stan Szeto/USA TODAY
Stan Szeto/USA TODAY

Sul-coreanos protestam contra dispensas de esportistas do serviço militar

Jovens reclamam que atletas milionários recebem privilégios, enquanto mais pobres têm de servir Forças Armadas

Choe Sang-Hun, Seul (Coreia do Sul), The New York Times

29 Outubro 2018 | 11h36

Choo Shin-soo, um astro da defesa do Texas Rangers, e Ryu Hyun-jin, um arremessador do Los Angeles Dodgers, têm mais em comum do que suas carreiras na Major League Baseball e a nacionalidade sul-coreana. Ambos também ganharam seus milhões no beisebol, enquanto isentos do recrutamento militar.

Por lei, todos os homens capazes na Coreia do Sul devem passar pelo menos 21 meses nas Forças Armadas, um sistema de recrutamento considerado crucial para a defesa do país contra a Coreia do Norte. Mas, durante décadas, os melhores atletas foram dispensados desse dever se “derem realce ao prestígio nacional”, conquistando medalhas na Olimpíada ou nos Jogos Asiáticos quadrienais, como fizeram Choo e Ryu.

Agora, muitos jovens sul-coreanos estão questionando a justiça dessa prática, chamando-a de um legado obsoleto do passado ditatorial de seu país. Eles indagam por que os atletas milionários recebem tal privilégio, enquanto inúmeros jovens mal pagos têm que servir. E se o triunfo nos Jogos Asiáticos contasse para honrar o perfil da nação, o que acontece com as pessoas que o fazem em outras esferas da vida - como os integrantes da banda pop BTS, os primeiros músicos sul-coreanos a alcançar o topo das paradas da Billboard, que discursaram na Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro.

“Eu acho que os membros da BTS também deveriam receber a isenção”, disse Song Kyung-taek, cuja medalha de ouro em deslocamento de velocidade em skate nos Jogos Asiáticos de 2007 o livrou do serviço militar. “Quando sul-coreanos vão para o exterior, podemos mencionar o BTS para explicar de onde viemos.”

O descontentamento com o programa fervilhou desde os Jogos Asiáticos deste ano na Indonésia, que terminaram no mês passado. Ao todo, 42 atletas, incluindo 29 jogadores de beisebol e futebol, ganharam isenções de recrutamento ao receber medalhas de ouro individuais ou coletivas nos jogos, onde a Coreia do Sul é rotineiramente um dos principais competidores em muitos esportes.

“Isso não é justo”, disse Park Han-jin, 26 anos, um veterano da Força Aérea, que duvida que a medalha tenha muito efeito sobre o prestígio do país de uma forma ou de outra. “Nosso país já ganhou cinco medalhas de ouro nos Jogos Asiáticos só em beisebol e futebol.”

Os pedidos de isenção são muito procurados na Coreia do Sul, onde mais de 230 mil jovens a cada ano, geralmente entre 18 e 28 anos, precisam interromper seus estudos ou carreiras para se juntarem às forças armadas. De um ponto de vista financeiro, os atletas de elite que enfrentam a convocação têm mais em jogo do que a maioria, especialmente aqueles em esportes potencialmente lucrativos como beisebol e futebol. Contratos multimilionários podem depender do fato de acatarem ou evitarem o recrutamento.

O jogo de futebol da final dos Jogos Asiáticos entre a Coreia do Sul e o Japão atraiu atenção especial, pois foi a última chance de Son Heung-min de encarar o clube britânico Tottenham Hotspur, para manter-se fora dos quartéis. Son, de 26 anos, teve até o julho para conseguir a dispensa, ou teria que desistir da Premier League pelo Exército. “Era como se as pessoas assistissem ao jogo principalmente para ver se Son Heung-min poderia escapar das Forças Armadas”, disse Koo Hyok-mo, ex-capitão do exército, durante um fórum no mês passado.

Os atletas não são os únicos que podem ganhar dispensa de recrutamento; elas também são concedidas a músicos clássicos e tradicionais que ganham certos prêmios. Os cantores pop não têm essa oportunidade, embora o K-pop (Korean Pop) seja um fenômeno global. Quando membros de boy bands conhecidas se reportam ao campo de treinamento, multidões de fãs de toda a Ásia se reúnem para se despedir deles.

"Quando eu trabalhava na Jordânia como treinador voluntário de taekwondo, eu podia ver uma grande mania pelo K-pop lá e como ela tinha um importante papel ao levar as pessoas a gostar Coreia do Sul”, disse Kang Tae-gyu, outro sul-coreano para o qual os músicos pop devem receber tais dispensas.

Mas a recente repercussão quanto ao programa concentrou-se na dispensa para atletas, que ao longo dos anos parecem ter sido dadas quase de acordo com caprichos. Elas foram introduzidas em 1973 pelo ditador Park Chung-hee, que estava pressionando os sul-coreanos para trazer mais medalhas para o país nos principais esportes - para distrair a população de sua insatisfação com seu governo, na opinião de alguns historiadores. Um lutador, Yang Jung-mo, foi o primeiro a receber uma isenção, depois de ganhar o ouro nos Jogos Olímpicos de 1976.

O governo começou a dar ainda mais dispensas em 2002, quando a Coreia do Sul estava organizando outro grande evento esportivo: a Copa do Mundo de Futebol, organizada com o Japão. A equipe nacional foi informada de que poderia escapar do serviço militar se atingisse a rodada de 16. Não só fez isso, como chegou às semifinais.

Logo após esse aparente sucesso, o governo fez a mesma promessa para o time nacional de beisebol se alcançasse as semifinais do Mundial de Beisebol em 2006. Conseguiu o terceiro lugar. Mas muitos sul-coreanos pareciam acreditar que a política tinha ido longe demais, e tanto o torneio de beisebol quanto a Copa do Mundo foram retirados do programa de dispensa de recrutamento, em meio à repercussão que se seguiu.

Este ano, grande parte do descontentamento público quanto às isenções relativas aos Jogos Asiáticos girou em torno do time de beisebol. Treinadores foram acusados de recrutar não os jogadores mais qualificados, mas aqueles que estavam mais desesperados para ficar longe das forças armadas.

O treinador Sun Dong-yol negou veementemente a acusação em uma coletiva de imprensa neste mês. Como tais histórias atraíram críticas, o primeiro-ministro Lee Nak-yon prometeu tornar os critérios de isenção mais “razoáveis”.

O Ministério da Defesa quer eliminar gradativamente as isenções por razões próprias. Depois de décadas de queda nas taxas de natalidade, a Coreia do Sul enfrenta dificuldades para preencher as fileiras de suas forças armadas de 650 mil membros, e os militares, basicamente, querem quantas pessoas conseguirem. Até alguns anos atrás, por exemplo, os oficiais de recrutamento excluíam homens com grandes tatuagens do serviço militar, porque as tatuagens eram frequentemente associadas ao crime organizado. Não mais.

Song, o medalhista de ouro da patinação de velocidade, teme que esportes como o dele, que não têm ligas profissionais e contratos lucrativos, sejam prejudicados se as isenções de convocação forem abolidas. As isenções são uma das principais razões para os pais incentivarem seus filhos a praticarem tais esportes, disse Song, que agora treina para a equipe nacional.

“Quando os atletas treinam para as Olimpíadas, eles buscam medalhas de ouro, não dispensa do serviço militar”, disse ele. "Mas seus pais são diferentes.” / Tradução de Claudia Bozzo

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