Ed Sloane/WSL
Gabriel Medina e Italo Ferreira na etapa de J-Bay Ed Sloane/WSL

Surfe muda de status no Brasil com ídolos e bons patrocínios aos atletas

Com gestão de carreira e apoio de grandes marcas, brasileiros chegam à decisão no Havaí em busca do título mundial

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2019 | 04h33

Pelo sexto ano seguido, o Brasil tem a possibilidade de conquistar o Circuito Mundial de Surfe. Gabriel Medina foi campeão em 2014 e 2018, Adriano de Souza em 2015 e agora Medina, Italo Ferreira e Filipe Toledo têm ótimas possibilidades de colocar o País no lugar mais alto do pódio pela quarta vez nessa geração que ficou conhecida como "Brazilian Storm". Eles competem com Jordy Smith (África do Sul) e Kolohe Andino (EUA) pelo troféu no Pipe Masters, última etapa do ano que começa neste domingo, no Havaí, com transmissão da ESPN.

A excelente geração de atletas no surfe está colocando o esporte em evidência cada vez mais no Brasil. Só que esse domínio não ocorre apenas pelo talento dos surfistas e sim por uma combinação de fatores. O Brasil tem extensa faixa litorânea, o custo para a prática não é alto, a estrutura de competição para jovens talentos é boa em relação a outros países, existem ídolos na modalidade, grandes marcas estão patrocinando o esporte, houve profissionalização na carreira dos principais atletas e, por último, o surfe entrou no programa olímpico.

Esse sucesso trouxe também para o surfe empresas que pouco tempo atrás não faziam parte desse mundo. Uma das pioneiras foi a Oi, de telefonia, que agora investe em atletas, banca os “naming rights” da etapa brasileira do Circuito Mundial e promove eventos de base. "Quando uma marca como a Oi, que não é endêmica desse mercado, investe desse jeito no surfe, obviamente isso chama atenção de outras marcas. Esse movimento da Oi estimula que outras empresas invistam cada vez mais no esporte", explica Bruno Cremona, gerente de eventos e patrocínios da Oi.

Quando ele fala de uma marca "não endêmica" ele se refere a empresas que inicialmente não faziam parte do mundo do surfe, que girava em torno de algumas marcas tradicionais como Billabong, Quiksilver, Rip Curl e Hang Loose, entre outras. Outro dado interessante é que o surfe é transmitido principalmente via streaming, pois as competições só ocorrem se o mar estiver em boas condições. Com isso, a Oi aproveita para reforçar sua estrutura de telefonia e dados aos fãs.

O Bradesco, por sua vez, apostou em Gabriel Medina como garoto-propaganda. "Ele tem níveis incríveis de recall e admiração em públicos variados e nos permite gerar conversas interessantes para a marca e para a sociedade. Sua trajetória vitoriosa de disciplina e persistência inspira a todos, em especial o público mais jovem como ele, de uma geração hiperconectada, criativa e extremamente digital. A parceria tem total sinergia com o momento da marca", diz Márcio Parizotto, diretor de marketing do banco, lembrando ainda que existe patrocínio a Sophia Medina, irmã do bicampeão mundial, e ao IGM, o instituto criado pelo surfista para formar atletas.

Quem também dropou nessa onda foi a Jeep, que desde 2015 patrocina a WSL (Liga Mundial de Surfe) e a cada ano vem reforçando essa parceria. "A marca se apoia em quatro pilares principais (Aventura, Autenticidade, Paixão e Liberdade), por isso, se aproximar de um esporte que também tem a sua base nestes pilares sempre foi um caminho natural", conta Frederico Battaglia, diretor de marketing para a América Latina do Grupo Fiat Chrysler.

A Jeep também patrocina surfistas, entre eles Filipe Toledo, que traz a marca colada em sua prancha. "Isso faz parte de uma estratégia da marca para se conectar com a base de fãs de todo mundo que abraçam o estilo de vida radical e se preocupam tanto com o meio ambiente quanto com a sociedade que os rodeia", continua Battaglia.

Gestão. Medina tem sua carreira gerenciada pela empresa Go4It. Essa é uma tendência que chegou ao surfe para ficar. Segundo Felipe Stanford, diretor de parcerias globais e atletas da empresa, boa parte dos surfistas da elite mundial conta com uma pessoa que faz toda a gestão de carreira e marca.

"O Gabriel Medina virou sinônimo de alta performance e inovação em função de tudo que faz sobre a prancha. Além disso, ele é jovem, carismático e muito ligado à família. Todas essas características fazem dele único no universo de surfe e levam ele a ter uma legião de fãs nas redes sociais", diz, citando os mais de 8 milhões de seguidores no Instagram.

Felipe Borges, diretor de patrocínio da G8 Sports e que cuida da carreira de Adriano de Souza, Tatiana Weston-Webb e Silvana Lima, entre outros, relaciona muitas dessas mudanças ao desejo de ter o estilo de vida dos atletas. "Antes o surfista batia o escanteio e tinha de correr para cabecear. Ele era conceituado como o cara que não queria nada com a vida e o esporte ficava preso naquele nicho. Mas muita coisa mudou e hoje ele é o exemplo da geração saúde, que não sai à noite, tem alimentação saudável e que muitos jovens querem ser", explica.

Para os próximos anos, a tendência é de aumentar o crescimento. Alfio Lagnado, proprietário da Hang Loose, acompanha esse mercado desde cedo. Sua empresa sempre foi ligada ao surfe, ele patrocina eventos e vê enorme potencial no esporte. "O Brasil se tornou protagonista com vários títulos mundiais e tem chances reais de medalha na Olimpíada. O surfe traz uma associação com juventude, saúde e harmonia com a natureza, ou seja, valores que toda grande marca quer se associar", afirma.

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Brasil vira o principal mercado da Liga Mundial de Surfe no mundo

Entidade que cuida da modalidade abre escritório no País, dono de 30% da audiência internacional

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2019 | 04h33

A WSL (Liga Mundial de Surfe) inaugurou em julho um escritório em São Paulo para organizar eventos, oferecer produtos e ajudar a trazer novos fãs para a modalidade. Já existia uma estrutura da entidade no País, mas o crescimento era inevitável. Só para se ter uma ideia, 30% da audiência nas plataformas no mundo é de brasileiros, à frente de Austrália e equilibrada com EUA. Ou seja, o Brasil tornou-se o principal mercado.

"Do ponto de vista de negócios, a WSL tem três pilares: igualdade na premiação entre homens e mulheres, algo raro no esporte profissional, sustentabilidade, com uma preocupação clara com a conservação dos oceanos, e estilo de vida, que é diferente do cara que gosta de futebol", diz Ivan Martinho, gerente geral da WSL na América Latina.

Segundo Pedro Dau de Mesquita, diretor comercial da 213 Sports, empresa que é a agência comercial da WSL no Brasil, a virada de chave na modalidade ocorreu em 2015. Na ocasião, e Medina já tinha sido campeão mundial no ano anterior, a etapa no Rio foi o evento de maior audiência da história do surfe.

"Fizemos uma parceria com a Globo e a final foi transmitida ao vivo por 40 minutos, alcançando mais de 21,5 milhões de pessoas. Ali o surfe deixou de ser um esporte de nicho e virou popular. Começamos a perceber uma mudança no comportamento das pessoas", conta.

Ele explica que existem quatro ingredientes para um esporte ser de massa: ter ídolo nacional, apresentar rivalidades, possuir uma base de fãs apaixonados e contar com transmissão de alta qualidade. "Só para se ter uma ideia, 90% de quem consome surfe no Brasil nunca subiu numa prancha, ou seja, cada vez mais é um produto aspiracional", revela.

Além da busca por mais um título mundial, o Brasil tem os atuais campeões Pro Junior (Mateus Herdy em 2018 e Lucas Vicente em 2019) mostrando que a base vem forte. E nos negócios, 2020 tem tudo para bater recordes "pelos contratos já fechados e pelo o que está em negociação para o próximo ano”, avisa Ivan Martinho. 

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