Werther Santana / Estadão
Surfistas negras, como a campeã brasileira Julia Santos, buscam mais patrocínio e maior visibilidade  Werther Santana / Estadão

Surfistas negras, como a campeã brasileira Julia Santos, buscam mais patrocínio e maior visibilidade  Werther Santana / Estadão

Nadando contra a maré, surfistas negras buscam visibilidade e patrocínios

Modalidade que garante títulos ao Brasil oferece poucas oportunidades para atletas pretas e pardas, que estão fora do Circuito Mundial

Gonçalo Junior , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Surfistas negras, como a campeã brasileira Julia Santos, buscam mais patrocínio e maior visibilidade  Werther Santana / Estadão

Depois de quase 14 anos somando bons resultados no surfe, como o tricampeonato santista e o título brasileiro de 2019, a paulista Julia Santos conseguiu o primeiro patrocínio da sua carreira somente em setembro deste ano. A atual campeã nacional, a cearense Yanca Costa, diz que terá boas notícias sobre apoios em 2022, mas que ainda não podem ser divulgadas. Negras e periféricas, Yanca e Júlia exemplificam como a diversidade étnica avança no surfe feminino depois de décadas remando contra a maré.

O movimento ainda é lento. Das 30 atletas do ranking feminino da Associação Brasileira dos Surfistas Profissionais (Abrasp) de 2019, o último completo antes da pandemia, apenas sete eram negras. Hoje, nenhuma atleta negra disputa o Circuito Mundial de Surfe. Por quase uma década, a cearense Silvana Lima foi a única a carregar a bandeira da representatividade.

“Não vejo preconceito no surfe em si, mas a gente sabe que a sociedade brasileira ainda é desigual. O surfe é um sintoma. A quantidade de surfistas não representa a população negra no geral”, afirma Pedro Falcão, presidente da Abras.

Na Confederação Brasileira de Surfe (CBSurf), a base de dados é restrita. Das 99 mulheres cadastradas e ranqueadas na entidade (22% do total), apenas 6% delas responderam a autodeclaração de raça. Nenhuma se declarou preta. 

Julia agora é patrocinada pela marca brasileira HD. Ela conquistou o chamado "patrocínio de bico”, o principal, que garante um salário mensal e apoio por três anos. Agora, ela vai poder trocar o ônibus pelo avião nas provas nacionais, por exemplo. Também vai dar uma folga no orçamento doméstico. A mãe, a diarista Iolanda Nicanor, adiou por anos a troca da TV de tubo para ajudar no sonho da filha atleta. As duas moram em São Vicente, litoral de São Paulo.

“Não sou a figura que as marcas procuram, aquele estereótipo da pele clara e o cabelo loiro. Foi bem difícil aceitar, mas foi uma motivação a mais. Coisas boas aconteceram e finalmente chegou a oportunidade. Estou em êxtase”, diz a atleta de 25 anos.

Rafaella Teixeira, vice-campeã brasileira profissional 2019 na categoria até 18 anos, tem apoiadores, mas ainda corre atrás de um patrocínio principal. “Antigamente deveria ser muito pior, mas a situação não melhorou tanto assim. A gente pode contar nos dedos quem tem patrocínio. Não é por falta de talento. Eu acredito que ainda continua esse preconceito”, diz lamenta a atleta de 20 anos de São Sebastião (SP).

Kiany Cristina, um dos talentos da nova geração, sente falta de referências. “Não vemos os negros numa revista ou pôster. É triste quando chego em uma loja para me apresentar como uma atleta profissional do surfe”, diz a atleta de 22 anos de Ubatuba (SP).

Tantos relatos sobre falta de apoio chamaram a atenção da jornalista e ex-surfista negra Érica Prado. Atleta nos anos 2000, campeã baiana e competidora do extinto SuperSurf, ela própria já havia sofrido com patrocínios escassos. Para ampliar a discussão sobre o tema, ela criou o perfil Surfistas Negras nas redes sociais. Hoje com mais de nove mil seguidores, a página procura aumentar a visibilidade das atletas e criar referências para quem está começando. No ano que vem, um encontro presencial vai dar novo impulso ao movimento. 

A busca por espaço não acontece só no Brasil. No início do mês passado, o jornal The New York Times publicou reportagem mostrando como os negros passaram a surfar em grupos na Califórnia após serem hostilizados

Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, as grandes marcas demoraram a abraçar a diversidade étnica, tornando difícil a participação dos surfistas negros em competições internacionais. Nos últimos anos, a internet e as redes sociais permitem que esses atletas sigam um caminho diferente, atraindo a atenção ao tirar e postar as próprias fotos, vídeos e competições.

Assassinato de George Floyd

Na visão das atletas brasileiras, os avanços do surfe feminino negro têm um marco: os protestos que se seguiram à morte do negro americano George Floyd em maio do ano passado. O movimento ativista internacional Black Lives Matter (Vidas pretas importam) jogou luz sobre a discriminação racial e a violência policial nos EUA e se tornou um movimento social mundial. No Brasil, o assassinato de João Alberto Freitas no Carrefour de Porto Alegre (RS) , no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, reacendeu o debate.

“As empresas estão se movimentando. Depois dos protestos no mundo todo, todos descobriram que existe racismo no Brasil. Foi um ano positivo. Várias meninas que não tinham patrocínio agora têm. Mesmo que a passos lentos, vemos uma evolução”, avalia Erica Prado. “Tivemos muitos protestos. As pessoas se unindo contra o racismo e o preconceito”, completa Júlia Santos.

A luta por visibilidade obviamente tem trajetórias bem-sucedidas. Por dez anos, Suelen Naraísa teve o patrocínio da marca Nicoboco para a disputa do Circuito Brasileiro e conquistou dois títulos nacionais. Hoje, mesmo fora do calendário competitivo, a atleta de 37 anos conquistou o patrocínio da Roxy para divulgação dos produtos. Formada em Educação Física, ela montou sua própria escola de surfe em Ubatuba. Seu objetivo é ser técnica da seleção brasileira feminina de surfe.

“Quero continuar trabalhando com surfe. Agora estou um pouco mais fora da água, mas quero continuar passando meus conhecimentos”, diz a professora.

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Atleta negra pioneira no País promove a inclusão no surfe em Pernambuco

A ex-atleta Nuala Costa, uma das primeiras surfistas negras do País, criou o coletivo antirracista TPM (Todas para o Mar)

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

No final de novembro, o coletivo feminista e antirracista TPM (Todas para o Mar) vai promover um evento para a inclusão de 50 adolescentes e crianças, brancas e negras, no surfe feminino das comunidades de Maracaípe (PE), uma das principais rotas de competições surfe na região Nordeste.

Pioneiro ao oferecer diversas modalidades e categorias, o encontro pretende garantir visibilidade para o surfe feminino, especialmente para negras e nordestinas, promovendo a democratização do esporte. Meninas que integram projetos sociais não pagam a inscrição e hospedagem.

O encontro é organizado por Nuala Costa, primeira negra a representar profissionalmente o estado nos torneios nacionais e uma das primeiras brasileiras a competir no circuito internacional. “Não consegui seguir na minha carreira por causa da falta de apoio. Quero que seja diferente para as meninas que estão começando”.

Nuala reclama de falta de apoio financeiro das grandes marcas, inclusive para a organização de eventos. “As mulheres continuam sem oportunidade e sem patrocínio para competir. Também é difícil organizar eventos de surfe feminino. Não existe apoio. Temos de fazer vaquinhas para pagar os juízes”, por exemplo". 

A ex-surfista atribui ao racismo estrutural as dificuldades para conseguir apoio. “As marcas buscam padrões que não são nacionais, que não são nossos. Muitos atletas não estão nesses padrões. Somos um país miscigenado, sem padrões”.

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Mulher negra está fora do imaginário construído no surfe; leia análise

Para professor da USP, as práticas ESG das empresas e ações afirmativas contribuem para atletas pretas e pardas conquistarem espaço no surfe

Dennis de Oliveira*, O Estado de S. Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

Uma das consequências do racismo estrutural é a criação de espaços permitidos e espaços vetados para os negros. Do ponto de vista geral, os espaços permitidos são os lúdicos, como os esportes e as artes. Os espaços vetados são aqueles de poder. No esporte, a presença negra é admitida no futebol. Nos esportes mais elitizados, como surfe, natação e tênis, existe praticamente um veto à presença negra.

O surfe está ligado às imagens de jovens brancos, de classe média. Esse é o imaginário construído. Nesse contexto, a mulher negra está fora desse imaginário. Por isso, essa dificuldade às verbas publicitárias. As marcas não querem associar sua imagem a uma atleta negra porque ela contradiz esse imaginário hegemônico de sucesso no esporte.

Existe maior visibilidade negra a partir das conquistas de políticas públicas e ações afirmativas do movimento negro. Isso começou a romper com os espaços proibidos. Existem mais negros nas universidades e em espaços antes vetados. Isso fez com as empresas começassem a mudar seu comportamento.

Dentre as melhores práticas consolidadas na sigla ESG no mundo corporativo (meio ambiente, social e governança) , o pilar social abrange a questão de gênero e racial. As empresas que associam suas marcas à ideia de diversidade agregam valor às suas marcas.

Para avançar nas questões de diversidade, o surfe precisa se popularizar. Com o aumento do número de praticantes e espectadores, a indústria esportiva passa a se preocupar mais com as questões sociais. A pressão das surfistas negras também pode contribuir para modificar o cenário.  

 

* PROFESSOR DA ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E AUTOR DO LIVRO 'RACISMO ESTRUTURAL - UMA PERSPECTIVA HISTÓRICO-CRÍTICA' 

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