Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2008 | 00h00

Um jogo como a goleada sobre a Venezuela não permite muitas conclusões, mas pelo menos não foram 90 minutos em que se viu a seleção brasileira tratando mal a bola e o torcedor. Não permite muitas conclusões porque foi mais fácil vencer a Venezuela, no dia das crianças, do que tirar pirulito de uma. Iludida pela vitória no amistoso e ansiosa para agradar ao público, ela provou mais uma vez que um time sem tradição se trai pela ingenuidade. A seleção brasileira, porém, entrou em campo consciente da diferença e de como usá-la. Finalmente, sob Dunga, deu a sensação de que houve análise prévia; de que havia uma proposta tática de acordo com suas características e as do adversário.Pense no lance do primeiro gol. Robinho, mais pelo lado esquerdo, estava atento à sobra da marcação dos volantes; pediu a bola e saiu em velocidade com ela, em linha reta, usando os espaços sem dar nenhum drible para trás; levantou a cabeça e tocou na direita para Kaká receber na frente, aberto. Este entrou na área e, ao seu estilo, esperou o momento certo para dar um tapa de lado na bola e fuzilar no canto e no alto. Objetividade com habilidade. Feitiço em vez de enfeite. Movimentação & refinamento. O mesmo se viu no gol seguinte, em que Robinho mais uma vez fez o que não costumava fazer, e acertou petardo de fora da área.Claramente houve uma conversa antes do jogo para que se investisse no contra-ataque veloz. Com Robinho pela esquerda, Kaká pela direita e Adriano como homem de área - para puxar marcação e escorar os cruzamentos, como fez no segundo gol -, o ataque fez uso da facilidade que a Venezuela deu. O posicionamento de Elano também foi outra mudança clara. Em vez de ficar na mesma região de Josué e Gilberto Silva, alternava entre aproximações com Robinho e com Kaká. Então o problema não era a tão anunciada renovação, a troca de jogadores exportados e milionários por legítimos produtos nacionais? Não. O problema da seleção de Dunga, como a de Parreira, era a postura autocondescendente, a suposição de que ao talento brasileiro basta entrar em campo e tocar a bola de lado até o momento de alguma inspiração individual.Esse problema, porém, está longe de ter sido resolvido, antes de mais nada porque Dunga só parece tê-lo enxergado agora. E a Venezuela continua a ser um dos muitos bobos que existem, sim, no futebol. A Colômbia não é muito melhor, mas provavelmente jogará de modo mais prudente e fechado, até por estar na casa alheia, e tem atletas mais fortes e alguns habilidosos, que usam bem as alas. Kleber, Josué, Gilberto Silva e Elano não convencem como titulares; no mínimo essas vagas, como a do suspenso Adriano - que fez apenas um bom lance além do gol e não usa as duas pernas como Luís Fabiano -, devem ficar em disputa. Diante de adversário que fica mais em seu campo, a seleção costuma ter dificuldade porque falta movimentação sincronizada e incisiva. Com Kaká em vez de Ronaldinho ou Diego, pelo menos o segundo item reaparece. Se ele for bem marcado, tudo se complica. Chances para Mancini e de novo Alex serão bem-vindas.Acho um erro querer que a seleção canarinho jogue sempre um futebol-arte como se fosse um time com dez Garrinchas ou como se ainda estivéssemos nos tempos de Garrincha. A geração vitoriosa de 2002 sofreu burramente com essas comparações românticas; Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos e Cafu estão entre os ídolos mais depredados da história da opinião esportiva nacional e, no entanto, brilharam muito e são mundialmente admirados. Aos poucos, os principais nomes para 2010 estão se fortalecendo. O nível é inferior, apesar de Kaká ser um dos melhores do mundo. Mas que a seleção consiga explorar de modo constante o talento de alguns componentes já seria um alento.

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